
Nunca analisei o trabalho dos vereadores prudentinos, mas de uma coisa já tenho certeza: os referidos nobres parlamentares são melhores que os de nossa capital. Forte indício disso é que nossas ruas, avenidas, parques, monumentos ou mesmo viadutos continuam sendo os mesmos desde que foram criados. Nos quinze anos em que passei em São Paulo, não tive notícia de nada que os vereadores daquela cidade tenham feito de marcante, a não ser duas coisas: roubar dinheiro público e mudar nomes de logradouros.
A primeira...desnecessário dizer. Talvez seja a única cidade no mundo onde um adesivo (distribuído pelo Jornal da Tarde, em 1995) com a inscrição “Eu tenho vergonha dos vereadores corruptos de São Paulo” não precisa ser tirado das janelas ou pára-brisas dos carros, pois sua mensagem permanece atual, ano após ano.
A segunda merece uma análise mais profunda. Ao contrário dos nossos edis, que nomeiam ruas, sim, mas ruas novas, em construção, os vereadores paulistanos parecem gostar de mudar nomes dos pontos mais nobres e conhecidos da capital.
Acha que eu vou falar da Ponte Cidade Jardim? Errou. Até porque, para quem não sabe, ela sempre se chamou Ponte Engenheiro Roberto Zuccolo, e nunca teve o nome de Cidade Jardim, tendo na verdade adquirido este apelido por ser um obstáculo entre duas partes da avenida de mesmo nome. O engenheiro que dá o nome oficial à ponte não só foi um grande nome da engenharia civil neste país como também o calculista daquela obra, e morreu poucos meses antes de sua inauguração. Portanto, por mais feio que seja seu nome, comparado ao apelido dado à ponte, a homenagem é justa é lícita – e diferente das homenagens a vivos que vemos na Bahia de ACM, no Maranhão de Sarney ou na Presidente Prudente de Paulo Constantino, que já emprestou seu nome, por um bom tempo, para nosso hoje movimentado Estádio do Prudentão.
Se a ponte encravada entre o Jardim Europa e o Morumbi fosse um caso único, ninguém estaria lendo este artigo hoje. Mas não é o caso. Espalhados por São Paulo, temos inúmeros casos iguais. Recentemente, o Túnel do Anhangabaú foi rebatizado como Túnel Papa João Paulo II. Justa homenagem ao Santo Padre, mas injusta ofensa ao patrimônio histórico e cultural de nossa capital. Precisava ser justamente o Túnel do Anhangabaú, um dos logradouros mais conhecidos da cidade? Podiam homenagear o antigo Papa rebatizando, por exemplo, o Túnel Tom Jobim. Tom agradeceria. Tenho certeza que o músico está se revirando em seu túmulo no verdíssimo Jardim Botânico carioca, desde que nosso famigerado Paulo Maluf colocou o nome dele num túnel que talvez seja um dos mais cinzas e congestionados da cidade. Já não chega terem, no Rio, trocado o nome do Galeão para Aeroporto Tom Jobim – pra quem não sabe, apesar do lindíssimo Samba do Avião, Tom detestava voar.
Outra vítima da onda de novos batismos feitos pelos vereadores paulistanos é a Ponte Anhangüera, que tem o mesmo nome da estrada à qual ela dá acesso, o que é totalmente lógico. Ou melhor, era, porque algum vereador resolveu homenagear Atílio Fontana e mudar o nome da ponte. E quem foi Atílio Fontana? Não era paulistano, nem paulista. Gaúcho, avô do ex-ministro Luiz Fernando Furlan, Atílio foi fundador da Sadia, que hoje não existe mais, e da Transbrasil, que quebrou deixando um prejuízo considerável em impostos não pagos ao Estado. Aliás, falando em impostos não pagos, lembram da Daslu, de Eliana Tranchesi? Pois bem, seu pai, Dr. Bernardino, deu novo nome ao conhecido Viaduto São Carlos do Pinhal, que passa atrás do MASP.
Não se trata aqui de manchar biografias de personalidades que, de uma forma ou de outra, muito contribuíram para o desenvolvimento do Brasil. O nome de Daher Cutait, outro importante médico, um dos presidentes da Sociedade Brasileira de Proctologia, batiza desde 2001 um dos túneis mais famosos da cidade, o 9 de Julho. Precisava ser justo ele? A única justificativa que consigo encontrar, e de longe, é alguma semelhança entre um túnel e a atividade de um proctologista.
Tenho um posicionamento radical em relação à mudança de nomes de logradouros. Não concordo nem mesmo com o rebatismo da Rodovia dos Trabalhadores, por mais merecida que seja a homenagem à Ayrton Senna. Não acho que endereços devam ter dois nomes. Afinal, os aviões que chegam em Guarulhos pousam em Cumbica ou no Aeroporto Franco Montoro? Fazendo uma analogia com outras cidades, será que os vereadores paulistanos aprovariam a mudança de nome do Corcovado para Morro Leonel Brizola? A Praça dos 3 Poderes, em Brasília, pode um dia ser rebatizada como Praça Getúlio Vargas? Saindo do Brasil, que tal mudarmos o nome da Broadway, em NY, para Rua Ronald Reagan? Ou ainda, pra ficar na terrinha, você concordaria em passarmos a chamar a Washington Luís para Avenida Juarez Nobre?
Há diversas obras da prefeitura paulistana sendo concluídas e aguardando por um nome. Os vereadores não poderiam se contentar em batizá-las, ao invés de renomear logradouros famosos? Ou ainda, o principal: será que esses parlamentares não têm nada mais importante a fazer? Se está sobrando tempo, é melhor que fiquem jogando baralho do que desrespeitando a história das cidades brasileiras.
Não conte aos deputados estaduais, mas os túneis da Rodovia dos Imigrantes são todos numerados. Nenhum deles têm nome. Ainda...
A primeira...desnecessário dizer. Talvez seja a única cidade no mundo onde um adesivo (distribuído pelo Jornal da Tarde, em 1995) com a inscrição “Eu tenho vergonha dos vereadores corruptos de São Paulo” não precisa ser tirado das janelas ou pára-brisas dos carros, pois sua mensagem permanece atual, ano após ano.
A segunda merece uma análise mais profunda. Ao contrário dos nossos edis, que nomeiam ruas, sim, mas ruas novas, em construção, os vereadores paulistanos parecem gostar de mudar nomes dos pontos mais nobres e conhecidos da capital.
Acha que eu vou falar da Ponte Cidade Jardim? Errou. Até porque, para quem não sabe, ela sempre se chamou Ponte Engenheiro Roberto Zuccolo, e nunca teve o nome de Cidade Jardim, tendo na verdade adquirido este apelido por ser um obstáculo entre duas partes da avenida de mesmo nome. O engenheiro que dá o nome oficial à ponte não só foi um grande nome da engenharia civil neste país como também o calculista daquela obra, e morreu poucos meses antes de sua inauguração. Portanto, por mais feio que seja seu nome, comparado ao apelido dado à ponte, a homenagem é justa é lícita – e diferente das homenagens a vivos que vemos na Bahia de ACM, no Maranhão de Sarney ou na Presidente Prudente de Paulo Constantino, que já emprestou seu nome, por um bom tempo, para nosso hoje movimentado Estádio do Prudentão.
Se a ponte encravada entre o Jardim Europa e o Morumbi fosse um caso único, ninguém estaria lendo este artigo hoje. Mas não é o caso. Espalhados por São Paulo, temos inúmeros casos iguais. Recentemente, o Túnel do Anhangabaú foi rebatizado como Túnel Papa João Paulo II. Justa homenagem ao Santo Padre, mas injusta ofensa ao patrimônio histórico e cultural de nossa capital. Precisava ser justamente o Túnel do Anhangabaú, um dos logradouros mais conhecidos da cidade? Podiam homenagear o antigo Papa rebatizando, por exemplo, o Túnel Tom Jobim. Tom agradeceria. Tenho certeza que o músico está se revirando em seu túmulo no verdíssimo Jardim Botânico carioca, desde que nosso famigerado Paulo Maluf colocou o nome dele num túnel que talvez seja um dos mais cinzas e congestionados da cidade. Já não chega terem, no Rio, trocado o nome do Galeão para Aeroporto Tom Jobim – pra quem não sabe, apesar do lindíssimo Samba do Avião, Tom detestava voar.
Outra vítima da onda de novos batismos feitos pelos vereadores paulistanos é a Ponte Anhangüera, que tem o mesmo nome da estrada à qual ela dá acesso, o que é totalmente lógico. Ou melhor, era, porque algum vereador resolveu homenagear Atílio Fontana e mudar o nome da ponte. E quem foi Atílio Fontana? Não era paulistano, nem paulista. Gaúcho, avô do ex-ministro Luiz Fernando Furlan, Atílio foi fundador da Sadia, que hoje não existe mais, e da Transbrasil, que quebrou deixando um prejuízo considerável em impostos não pagos ao Estado. Aliás, falando em impostos não pagos, lembram da Daslu, de Eliana Tranchesi? Pois bem, seu pai, Dr. Bernardino, deu novo nome ao conhecido Viaduto São Carlos do Pinhal, que passa atrás do MASP.
Não se trata aqui de manchar biografias de personalidades que, de uma forma ou de outra, muito contribuíram para o desenvolvimento do Brasil. O nome de Daher Cutait, outro importante médico, um dos presidentes da Sociedade Brasileira de Proctologia, batiza desde 2001 um dos túneis mais famosos da cidade, o 9 de Julho. Precisava ser justo ele? A única justificativa que consigo encontrar, e de longe, é alguma semelhança entre um túnel e a atividade de um proctologista.
Tenho um posicionamento radical em relação à mudança de nomes de logradouros. Não concordo nem mesmo com o rebatismo da Rodovia dos Trabalhadores, por mais merecida que seja a homenagem à Ayrton Senna. Não acho que endereços devam ter dois nomes. Afinal, os aviões que chegam em Guarulhos pousam em Cumbica ou no Aeroporto Franco Montoro? Fazendo uma analogia com outras cidades, será que os vereadores paulistanos aprovariam a mudança de nome do Corcovado para Morro Leonel Brizola? A Praça dos 3 Poderes, em Brasília, pode um dia ser rebatizada como Praça Getúlio Vargas? Saindo do Brasil, que tal mudarmos o nome da Broadway, em NY, para Rua Ronald Reagan? Ou ainda, pra ficar na terrinha, você concordaria em passarmos a chamar a Washington Luís para Avenida Juarez Nobre?
Há diversas obras da prefeitura paulistana sendo concluídas e aguardando por um nome. Os vereadores não poderiam se contentar em batizá-las, ao invés de renomear logradouros famosos? Ou ainda, o principal: será que esses parlamentares não têm nada mais importante a fazer? Se está sobrando tempo, é melhor que fiquem jogando baralho do que desrespeitando a história das cidades brasileiras.
Não conte aos deputados estaduais, mas os túneis da Rodovia dos Imigrantes são todos numerados. Nenhum deles têm nome. Ainda...
