terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Não acredite em tudo o que você lê sobre o futuro


Quem assistiu a Os Jetsons na infância lembra bem qual era o conceito de futuro mostrado pelo desenho animado: teleconferências, elevadores pneumáticos, carros voadores e robôs-domésticos. Desses quatro, somente o primeiro deu certo e, ainda assim, com qualidade e velocidade muito inferiores às da fantasia, ao menos até hoje. O filme 2001-Uma Odisséia no Espaço, que de futuro não tem mais nada, previa conquistas tecnológicas muito superiores às alcançadas até o momento. Mesmo agora, em 2010, quando o Tablet e o Kindle são a coqueluche do momento, os jornais em papel continuam sendo os preferidos, embora sua circulação venha caindo vertiginosamente.

Prever o futuro é muito fácil. Difícil mesmo é acertar. Prova disso é este artigo que encontrei fuçando no fundo de um baú virtual. Trata-se de uma edição do The Ladies' Home Journal de 1900, onde o jornalista John Elfreth Watkins Jr. arriscou, após consultas a muitos pesquisadores e universidades, prever o que aconteceria 100 anos à frente dos seus dias. O resultado é surpreendente, e o que ele acertou está em branco. O que ele errou - a maioria - está em amarelo. Confira minha tradução e divirta-se!


O que poderá acontecer nos próximos cem anos

Estas profecias parecerão estranhas e quase impossíveis. Mas vêm das mais cultas e conservadoras mentes americanas. Estive reunido com sábios homens das mais renomadas instituições científicas e educacionais, pedindo a cada um para formular, em seus próprios campos de investigação, suas previsões para um século adiante de hoje. E as transcrevi cuidadosamente abaixo:

Quinhentos milhões de pessoas - Haverá provavelmente entre 350 e 500 milhões de habitantes nos EUA e suas possessões na virada do próximo século. A Nicarágua (SIC) pedirá para fazer parte da União após o término da obra do Grande Canal. O México será o próximo. A Europa, buscando mais território ao nosso Sul, fará com que muitas repúblicas centro e sul-americanas votem e façam parte daquela União.

O americano será mais alto - Uma ou duas polegadas será o aumento na estatura média do americano, resultado de sua melhor saúde causada pelas vastas reformas da medicina, das condições sanitárias, melhor comida e esportes. O americano viverá, ao invés de trinta e cinco anos, em média cinqüenta. Ele viverá afastado das cidades. Construir prédios será ilegal. A viagem de casa até a cidade levará minutos e provavelmente custará um centavo.

Não haverá o uso das letras C, X e Q no nosso alfabeto cotidiano - Elas serão abandonadas por serem desnecessárias. Adotaremos a soletração pelo som, e a língua inglesa terá palavras condensadas expressando idéias condensadas, além de ser mais falada que qualquer outra. O russo virá em segundo lugar.

Ar quente e frio em torneiras - O ar quente e frio virá de torneiras, assim como a água que usamos hoje, para regular a temperatura do banho. Usinas centrais produzirão todo o ar quente e frio que utilizarmos, e o distribuirão pelas cidades, do mesmo modo que gás e eletricidade são fornecidos hoje. Acordar cedo para acender a fornalha será tarefa do passado. As casas não terão chaminés, pois não haverá fumaça sendo produzida.

Sem moscas ou mosquitos - Telas anti-insetos serão desnecessárias. Mosquitos, moscas e baratas terão sido praticamente exterminados. Os comitês de saúde terão destruido o fantasma dos mosquitos e da água parada. Os pântanos serão preenchidos com terra e todas as águas paradas serão tratadas. A exterminação do cavalo e dos estábulos reduzirá as moscas caseiras.

Refeições prontas serão compradas de lojas parecidas com as padarias de hoje. Elas comprarão tremenda quantidade de ingredientes e cozinharão os pratos, que serão vendidos a preços infinitamente inferiores ao custo da cozinha individual. A comida será servida quente ou fria às casas através de tubos pneumáticos ou vagões automotivos. Terminada a refeição, a louça suja retornará da mesma forma aos estabelecimentos, onde será lavada. Essa culinária coletiva será feita em laboratórios elétricos, ao invés de cozinhas. Os laboratórios serão equipados com fogões elétricos e todo tipo de utensílios, como moedores de café, batedeiras, liquidificadores, moedores de carne, amassadores de batatas, lavalouças, etc. Os utensílios serão lavados em soluções químicas fatais aos micróbios. Comprar e cozinhar a própria comida será uma extravagância.

Alimentos não serão expostos - os donos de lojas que expuserem a comida ao ar respirado por todos nós nas ruas movimentadas serão presos, assim como aqueles que vendem comida estragada hoje. Refrigeradores manterão alimentos conservados por longos intervalos.

O carvão não será usado para cozinhar ou aquecer - Ele será escasso, mas ainda existirá. Todo o carvão da Terra durará no máximo até o ano de 2300, portanto será cada dia mais caro. O homem terá descoberto como produzir eletricidade barata com a água. Cada rio ou queda d'água terá suas turbinas girando dínamos e produzindo eletricidade. Ao longo da costa, haverá inúmeros reservatorios abastecidos pelas ondas e marés, e essa água moverá turbinas constantemente. Toda a nossa infinita água marinha fará o que Niagara faz hoje: produzirá eletricidade para aquecimento, luz e combustível.

Não haverá carros nas grandes cidades - todo o trânsito ocorrerá abaixo ou muito acima do chão, dentro do limite das cidades. Na maioria delas, ele será confinado em metrôs ou túneis bem iluminados e ventilados, ou em grandes cavaletes com escadas automáticas dando acesso aos mesmos. Essas vias abaixo ou acima das ruas comportarão grandes carros de passageiros, com rodas amortecidas. Uma das duas vias será reservada exclusivamente para trens expressos. As cidades, portanto, ficarão livres do barulho.

Fotografias serão telegrafadas para qualquer distância. Se houver uma batalha na China, seus momentos mais marcantes serão publicados nos jornais horas depois. Mesmo hoje, fotografias já são telegrafadas em curtas distâncias, mas no futuro elas mostrarão todas as cores da natureza.

Trens à 240 km por hora - normalmente, eles farão 3,2 km por minuto, mas os trens expressos correrão a 240 km por hora. Ir de Nova Iorque a San Francisco levará um dia e uma noite. Haverá locomotivas em forma de charuto, levando longas composições. Assim como as casas, os carros serão artificialmente refrigerados. Não haverá fumaça nas ferrovias, os vagões não precisarão carregar carvão e não serão necessárias paradas para abastecimento do trem com água. Os passageiros, portanto, poderão viajar com as janelas abertas.

Carros serão mais baratos que cavalos - fazendeiros possuirão automóveis de feno, arados, carrocerias e tratores. Um motor 0,5 cc nesses veículos farão o trabalho de um ou dois cavalos juntos. As crianças andarão de trenós motorizados no inverno. Os automóveis terão substituído todos os veículos de tração animal conhecidos. Como já existem hoje, haverá rabecões, carros de polícia e varredores de rua motorizados. O cavalo com arreios será escasso, mas não tanto como os bois de carga são hoje.

Todo mundo andará 10 milhas - a ginástica começará já no berçário, onde brinquedos e jogos serão feitos para desenvolver os músculos. Exercícios serão obrigatórios nas escolas. Toda escola, colégio ou comunidade terá um ginásio completo. Todas as cidades terão ginásios públicos. Todo homem ou mulher incapaz de andar 10 milhas numa tacada só será considerado fraco.

Inglaterra em dois dias - rápidos navios elétricos, cruzando o oceano a quase 2 km por minuto, irão de Nova Iorque para Liverpool em dois dias. O corpo desses navios ficará acima das ondas. Eles serão apoiados em esquis, quase como os trenós de hoje. Esses esquis serão bastante flutuantes, e no espaço entre o corpo dos navios e os esquis haverá aberturas expelindo jatos de ar, criando um filme de ar entre o navio e a água que reduzirá o atrito com a água ao menor grau possível. Turbinas elétricas girarão dentro e fora d'água. Os navios terão cabines refrigeradas e totalmente à prova de fogo. Em tempestades, eles mergulharão abaixo d'água e esperarão por uma condição climática melhor.

Haverá navios aéreos, mas eles não terão sucesso frente aos navios e carros no transporte de passageiros ou cargas. Serão mantidos como veículos de guerra por todas as nações militarizadas. Alguns transportarão pessoas ou bens, e outros serão usados por cientistas para observações em grandes altitudes.

Navios de Guerra Aéreos e Fortes sobre rodas: armas gigantes atirarão a 40 km de distância ou mais, e atirarão bombas destruindo cidades inteiras. Essas armas atirarão auxiliadas pelo cálculo de compassos, quando do mar, ou telescópios, quando de grandes alturas. Frotas de navios aéreos esconder-se-ão na neblina produzida por elas mesmas enquanto se movem, flutuando sobre cidades ou instalações militares, e surpreenderão inimigos com raios mortíferos. Serão revestidos com placas de aço à prova de bombas. Enormes fortes sobre rodas rasgarão espaços abertos com a velocidade dos trens expressos de hoje, fazendo o que fazem os carregamentos de cavalarias inteiras. Enormes tratores cavarão trincheiras tão rapidamente quanto os soldados possam ocupá-las. Rifles usarão cartuchos silenciosos. Submarinos serão capazes de afundar uma marinha inteira. Balões e máquinas voadoras carregarão telescópios com visão de 160 km com câmeras, fotografando inimigos nesse raio. Essas fotografias, tão nítidas como as tiradas do outro lado da rua, serão entregues ao comando das tropas.

Não haverá animais selvagens, exceto em zoológicos. Ratos e ratazanas terão sido exterminados. O cavalo tornar-se-á praticamente extinto. Alguns, de raça, serão mantidos pelos ricos para hipismo, enduros ou caça. O automóvel vai acabar com o cavalo. Bois e carneiros não terão chifres. Eles serão incapazes de correr mais que um porco gordo. Um século atrás, um porco podia ultrapassar um cavalo. Animais de corte serão criados para passar sua vida inteira produzindo leite, carne, lã e outros derivados. Chifres, ossos, músculos e pulmões serão abandonados.

O Homem Enxergará através do Mundo - pessoas e coisas ao redor do mundo serão trazidos ao foco por câmeras conectadas à telas milhares de quilômetros além em questão de segundos. Coroações de reis na Europa ou guerras asiáticas poderão ser vistas em teatros. Os instrumentos que transmitirão essas imagens serão conectados a grandes aparatos telefônicos, transmitindo cada som em seu lugar apropriado. Os tiros de uma batalha serão ouvidos, assim como poderemos ler os lábios dos cantores ao passo que eles cantam cada palavra.

Telefones ao redor do mundo - telefones sem fio e circuitos telegráficos ocuparão o mundo. Um marido no meio no Atlântico poderá conversar com sua esposa em seu quarto de vestir em Chicago. Poderemos telefonar para a China tão prontamente quanto telefonamos hoje de Nova Iorque para o Brooklyn, por meio de sinais automáticos e sem a intervenção de telefonistas.

A ópera será teletransmitida às residências, e soará tão harmoniosa como as apreciadas dentro dos teatros. Instrumentos automáticos reproduzindo transmissões originais trarão a melhor música para as famílias dos "sem-talento". Ótimos músicos reunidos em Nova Iorque produzirão, eletronicamente, músicas em instrumentos que estarão em San Francisco ou Nova Orleans, por exemplo. Assim, grandes bandas e orquestras darão concertos à distância. Em grandes cidades, haverá óperas com músicos e cantores pagos com fundos filantropos ou do governo. O piano poderá mudar seu tom de alegre para triste. Muitos instrumentos serão capazes de agregar o efeito emocional à música.

Como as crianças serão educadas - a universidade será aberta às mulheres e homens. Diversas grandes universidades nacionais serão fundadas. Crianças estudarão uma gramática inglesa simples, adaptada ao inglês simplificado, ao invés daquele com influência do latim. Grupos de estudo economizarão bastante tempo. Estudantes pobres ganharão material e uniformes quando não puderem arcar com essas despesas. Inspetores médicos visitarão as escolas regularmente, fornecendo às crianças pobres medicamentos, óculos, tratamento dentário gratuito e atendimento médico grátis para qualquer tipo de problema. As crianças muito pobres terão transporte gratuito entre suas casas e a escola, e lanches gratuitos nos intervalos. Nas férias, as crianças pobres serão levadas para viagens em diversos lugares do mundo. Etiqueta e cuidados do lar serão matérias importantes na escola.

Compras por tubos - tubos pneumáticos, ao invés de caminhões, entregarão pacotes nas casas. Esses tubos irão coletar, entregar e transportar cartas em grandes distâncias, talvez centenas de quilômetros. Num primeiro momento, conectar-se-ão às casas dos mais ricos; depois, à todas elas. Grandes empresas conectá-los-ão a estações centrais, tal como ocorre hoje com os correios, de onde carros entregarão esses pacotes de casa em casa.

Vegetais cultivados eletricamente - Fazendeiros transformarão inverno em verão e noites em dias. Cabos aquecidos serão implantados abaixo do solo, aquecendo as plantas. À noite, vegetais tomarão banhos de luz elétrica, que funcionarão como o sol, apressando seu crescimento. Correntes elétricas acrescidas ao solo farão valiosas plantas crescerem mais e de maneira mais rápida, e matarão ervas daninhas. Raios coloridos apressarão o crescimento de diversas plantas. A eletricidade aplicada às sementes fará as mesmas brotarem rapidamente, desenvolvendo-se mais cedo.

A Philadelphia produzirá laranjas - rápidas geladeiras voadoras ou flutuantes trarão frutas tropicais para o Norte em poucos dias. Os fazendeiros sul-americanos, africanos australianos e dos mares do Sul, cujas estações são opostas às nossas, suprir-nos-ão com produtos que não podem crescer por aqui no inverno. Cientistas terão descoberto como cultivar aqui frutos que hoje só são obtidos em climas mais quentes. Deliciosas laranjas e melões crescerão em altas árvores, nos subúrbios da Philadelphia. Melões serão de natureza tão rústica, que poderão ser armazenados por um inverno inteiro, tal como as batatas de hoje.

Morangos do tamanho de laranjas serão comidos por nossos tataranetos em seus jantares natalinos daqui a cem anos. Cervejas e mirtilos terão o mesmo tamanho. Uma fruta dessas será o suficiente para cada pessoa. Morangos e cerejas crescerão em grandes arbustos. Groselhas e outras frutas vermelhas terão o tamanho das laranjas de hoje. Um só melão suprirá uma família inteira. Melões, cerejas, uvas, ameixas, maçàs, pêssegos e todas as outras frutas não terão sementes. Figos serão cultivados ao longo de todo o país.

Ervilhas grandes como beterrabas - feijões e ervilhas terão o tamanho de beterrabas. A cana produzirá duas vezes mais açúcar que as beterrabas de hoje, transformando-se no carro-chefe do nosso suprimento açucareiro. As ervas daninhas com seiva serão transformadas em plantas que produzirão borracha, colhida mecanicamente por todo o país. As plantas serão à prova de micróbios, assim como o homem de hoje resiste à varíola. O solo será mantido enriquecido por plantas que captarão nutrientes do ar, dando fertilidade à terra.

Rosas azuis, pretas e verdes - rosas terão o tamanho de repolhos, violetas serão grandes como orquídeas. Um amor-perfeito, que há um século tinha pouco menos de 2 centímetros, terá o tamanho de um girassol. Haverá rosas pretas, verdes e azuis. Será possível cultivar flores de quaisquer cores e transferir seu perfume para outras flores sem odores. Assim, o amor-perfeito poderá ter o cheiro da violeta.

Somente alguns remédios serão engolidos e dissolvidos no estômago. A maioria das drogas será aplicada diretamente nos órgãos aos quais se destina o tratamento. Remédios pulmonares, por exemplo, serão aplicados diretamente nos pulmões. Serão levados aos órgãos por correntes elétricas aplicadas externamente, sobre a pele, sem dor. Microscópios enxergarão os órgãos através da pele e da carne dos humanos e animais. Para fins medicinais, o corpo humano será transparente. Será possível para um médico não somente ver o coração batendo através do peito, mas também fotografá-la e ampliá-la. Este trabalho será feito com luzes e raios invisíveis.

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Deixo as conclusões pós-leitura para vocês, não sem antes reafirmar o título deste post: não acredite em tudo que você lê sobre o futuro...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Choque de Ordem nas Praias do Rio é Americanismo para Francês Ver


Eduardo Paes quer o Rio como as praias americanas: repletas de proibições.

O Rio, sabemos, é a cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos. A beleza continuará sempre por lá. O caos, por sua vez, parece já ter cumprido seu tempo de purgação e ido direto para o inferno. Ao menos é o que promete a prefeitura com seu novo órgão, cujo nome remete aos anos de chumbo da ditadura. Surgiu na cidade a tal SEOP - Secretaria Especial da Ordem Pública, que colocará em prática uma das bandeiras de campanha do prefeito Eduardo Paes.


Por onde começar um projeto tão ambicioso, que promete, dentre outras proezas, tirar das ruas mendigos e trombadinhas? Claro, por onde dê para inglês, ou alemão, ou francês ver: a praia. Nos quiosques, não dá mais pra mexer. O projeto - da gestão anterior - foi paralisado. Os novos quiosques, de metal e vidro, custaram caro e foram ocupados por grandes empresas como Coca-Cola e McDonald's. Resultado: o chope por lá custa quase o dobro do preço praticado nos antigos, a cujos funcionários só restou a opção de virarem barraqueiros de praia. Isso até 2009. Aí, veio o tal "choque de ordem", que limitou o número de vendedores. Só no trecho entre o Arpoador e o Leblon, eram 300. Hoje, são 193. Conclusão: só nessas 3 praias, o Rio, uma cidade quase não afetada pelo tráfico de drogas, ganhou 107 novos desempregados. Que, provavelmente, residem muito próximos às bocas de venda de drogas dos morros. Se os gerentes do tráfico forem espertos, ganharão alguns novos vendedores de praia. Haja apito...


Mas não é só isso. O número de cadeiras e guarda-sóis para aluguel também foi limitado. Quem tomar todas e acordar tarde vai ter que sentar na areia mesmo. As barracas dos vendedores também foram padronizadas. Teria a venda das novas barracas sido feita por uma empresa só? Não sei. São Paulo viveu experiência parecida, quando houve a padronização das bancas de jornal. Lembram? Uma tal de W-Sita, não por acaso o maior fabricante de bancas do país, era a única autorizada pela prefeitura paulistana a fornecer as mesmas. Se não me falha a memória, deu em CPI...vou pesquisar nos jornais. Desde que eu possa comprá-los com o jornaleiro de praia mais popular do Rio de Janeiro:



O choque de ordem carioca inclui aumento expressivo no número de fiscais. Eram vinte, já são 143 e a prefeitura fala em um contigente de até duas mil pessoas, fiscalizando tudo o que se faz ou se vende nas praias. A idéia também é equipar a guarda municipal com armas leves, como balas de borracha, para conter os que insistirem em desobedecer a lei. A SEOP também fala em adquirir armas elétricas e químicas. Armas químicas? Eduardo Paes que se cuide! O próximo presidente republicano dos EUA já tem motivo para invadir Copacabana...


Camarão? Agora só em lata."Pida"já o seu...

O espetinho de camarão foi proibido. O côco verde também, mas depois a SEOP voltou atrás. Caipirinha? Só da industrializada, que, se fosse boa mesmo, faria o mesmo sucesso que a Sagatiba faz pela Europa. Alimento em palito? Esquece. O sanduíche natural da praia também morreu. De hoje em diante, só o artificial, à venda em Copacabana nos quiosques do McDonald's ou do Bob's. Cocada? Só se for de fábrica, com embalagem constando o CNPJ do fabricante e seu registro na ANVISA. O carioca vai emagrecer. Não pode mais comer cocada na praia. E esse tiozinho aqui, que entende tudo de cocada diet, vai perder o emprego:



Frescobol, agora, só depois das 17 horas, assim como qualquer outro esporte com bolas. As crianças também pagarão a conta: o Baixo Bebê, barraca de brinquedos que desde os anos 90 marca presença no Leblon, na altura da Rua Venâncio Flores, também foi fechada pela SEOP. A publicidade nas cadeiras e guarda-sóis foi vetada. O Rio, portanto, já tem sua Lei CidadeLimpa. Com certeza, tirar a poluição visual da praia é muito mais efetivo que tentar tirar os outdoors das ruas. Paes está certo. O carioca ainda precisa se manifestar, deixando claras todas as suas indignações...


O Rio, terra de Tim Maia, o cantor, é uma das mais criativas capitais do Brasil. Talvez porque seus cidadãos menos favorecidos tenham que "dar nó em pingo d'água" para sobreviverem. O "choque de ordem" do prefeito do Rio é um americanismo. Eduardo Paes quer praias como as da Califórnia, ou da Flórida: repletas de proibições. Os criativos vendedores de praia, povo sofrido e batalhador, já fazem parte do folclore nacional. A imposição pelo governo dos equipamentos a serem utilizados onera a categoria, e a redução do número de profissionais não só provoca desemprego como também limita as atrações do show de talentos a que assistimos, todos os finais de semana, nas areias cariocas. Como este do Tim Maia, o vendedor de picolés:

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Sanduichão do Senado e o Ladrão da FGV


Foi divulgada hoje a licitação, iniciada em 17 de dezembro último, para a compra anual da despensa do casarão oficial da presidência do Senado. Na lista, estão 72 quilos de mussarela, 144 de queijo minas e 180 de presunto, suficientes para fazer um mistão-quente com mais ou menos o tamanho do bolo de aniversário da cidade de São Paulo. Tá achando pouco? Pois saiba que a conta do açougue senatorial beira os 80 mil reais e inclui, entre outras carnes, 360 quilos de filé mignon, 540 de picanha, 240 de camarão e 180 de linguiça. Segundo dados do Estadão, dá para um mega-churras com 12.500 convidados. Para os fãs de massas, serão comprados 240 pacotes de espaguete e talharim. Quem achar difícil enrolar a massa com o garfo poderá recorrer aos 60 pacotes de penne fresquinho. Para a sobremesa, 72 latas de goiabada e 180 potes de sorvete, deliciosamente cobertos com 240 latas de leite condensado.


A Esplanada dos Ministérios e a Sede da FGV de São Paulo

Ficou com água na boca? Pois eu fiquei com nojo, e o leitor também sentirá náuseas quando se lembrar que Sarney NÃO mora na residência oficial, e sim numa casa próxima (por sinal, comprada de Joseph Safra e não declarada pelo cappo em seu IR). Mas toda a comilança ocorrerá em possíveis eventos ou reuniões realizados naquela mansão. Vale lembrar que 2010 é ano eleitoral, quando Brasília fica às moscas a partir de agosto, início da campanha política.

O design curvo das salas da FGV e do Senado Federal também é semelhante...

Além dos privilégios do rei, para a burguesia (os 6 mil servidores do Senado, dos quais 181 ocupam diretorias) será construída, pela bagatela de R$ 1,9 milhão, a nova praça de alimentação daquela casa legislativa. Em qualquer organização privada do mesmo porte, empresas de catering ou cadeias de restaurantes se cotizariam e arcariam com o custo dessa praça de alimentação, baseado no retorno financeiro garantido pela demanda de 6 mil refeições diárias. Ou talvez 12 mil, já que a casa gastou quase 4 milhões de reais com horas-extras em 2009, indicando que os funcionários do Senado Federal andam trabalhando tanto que precisam jantar todos os dias por lá.

E não é que até os logotipos se parecem?

Acabou? Não, tem mais: a utilização pelos senadores das cotas de passagens de 2009 ao longo de 2010 foi autorizada por Sarney, apesar da farra turística com dinheiro público que veio à tona no início do ano. Junte-se a isso a triste constatação de que Sarney só cairá quando morrer e não é difícil concluir que somos todos reféns de um grupo de privilegiados que, embora representado principalmente pelos 81 senhores e senhoras eleitos pelo voto direto, é composto em sua maioria por concursados e indicados que recebem benefícios superiores aos dos mais graduados executivos de empresas privadas. Muitos deles, aliás, formados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), da qual o autor deste texto é egresso. Por sinal, justamente do curso de Administração Pública, que deveria formar gestores habilitados a reduzir a gastança que toma conta das casas legislativas brasileiras.



Pois bem: como o leitor deve se lembrar, a FGV foi contratada por Sarney para sugerir medidas, dentre outras, que pudessem reduzir o gigantesco número de diretores da casa (não existe uma só empresa com 181 diretores em todo o mundo). A FGV enviou 20 consultores para o Senado, onde passaram dias, chegando ao relatório que sugeria o corte de dois terços das diretorias, além de outras 500 sugestões dos próprios funcionários que, misteriosamente, não foram divulgadas pela imprensa. Sarney recebeu o relatório final e nada fez. Já a FGV recebeu R$ 250 mil pelo serviço e seus consultores foram embora, quietinhos, para São Paulo, provavelmente também cientes de que nada ocorreria. É que eles já sabiam que, em 1995, quando Sarney também era presidente do Senado, a mesma FGV foi contratada, desta vez por quase R$ 900 mil, para reestruturar o Senado. Que, na época, tinha bem menos diretorias.

Para quem está longe, tanto a FGV quanto o Senado possuem soluções...

Teria o aumento de diretorias sido sugerido pela FGV em 1995? Não sei. Mas creio que, certo mesmo, seria a FGV devolver os R$ 250 mil do ano passado ao erário e nunca mais aceitar prestar consultoria ao Senado. Envolver-se numa palhaçada dessas acaba manchando o nome da instituição. Não que aquela fundação tenha reputação ilibada: corre à boca pequena, entre alunos que por lá passaram, que famoso financista público, professor de carreira da casa, com as três últimas letras de seu nome semelhantes à deste escriba, se aproveitava da ingenuidade de pequenas prefeituras dos confins da Amazônia, onde o Diário Oficial da União chega com três ou quatro dias de atraso, e contatava as mesmas se passando por funcionário do Ministério da Fazenda, solicitando "gratificações" pela liberação de verbas que ele levantava lendo o próprio Diário, do conforto de seu escritório em plena Avenida 9 de Julho, na FGV. Algumas incautas prefeituras caíam no golpe, que rendeu ao tal professor o nada eufemístico apelido de "ladrão".

O Senado Federal e a sede da FGV do Rio de Janeiro

Se o rumor descrito acima é verdadeiro ou não, jamais saberemos. Assim como jamais saberemos se é verdadeiro o boato publicado pelos jornais, durante a crise do Senado, de que o gabinete de Agaciel Maia, diretor geral do Senado demitido em 2009, possuía uma escada-caracol que levava a uma pequena "sala dos pecados", com sofás, camas, TVs com filmes pornôs, preservativos e lenços de papel, onde senadores e diretores satisfaziam seus mais secretos desejos. Talvez o Senado e a FGV sejam mais parecidos que imaginemos. Talvez não. Não cabe a este pobre aspirante a jornalista investigar a fundo esta questão.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Lula e os Caças Franceses


Esta humilde tentativa de jornalista estréia no assunto Forças Armadas com uma triste constatação: ao que tudo indica, a escolha dos caças que a Aeronáutica comprará será totalmente política. Não bastou a FAB soltar um relatório técnico onde opta, em primeiro lugar, pelo caça Gripen NG, da sueca da SAAB (mais barato), em segundo pelo americano da Boeing (com mais modelos voando) e, em último, pelos Rafale da Dassault. O chanceler Celso Amorim já adiantou que prevalecerá o critério político na hora da decisão. Lula quer os caças franceses, por mais caros que sejam. Confesso que não entendia patavina sobre caças até a hora do almoço de hoje. Para escrever sobre os pontos principais desta questão, fiz o que todo jornalista deve fazer, mas que Lula não faz, pois "dá sono": ler.

Obama se interessa pelos aviões do Brasil, enquanto Sarkozy ri, porque sabe que já levou

-O governo alega que a escolha do caça sueco pela FAB só levou em conta o preço. O Gripen NG custa metade do preço do Rafale, o caça francês. O lote inicial previsto é de 36 caças, mas no total serão comprados 120. É isso mesmo que você está lendo: o Brasil vai gastar U$ 10 bilhões para comprar 120 caças franceses de última geração. Sabe quantos desses a França tem? Menos de 150. Pergunto: por que não usar os mesmos 10 bilhões e comprar 60 Rafale e 120 Gripen NG, formando uma frota de caças maior que a da França? Claro: Lula quer ajudar seu amigo, mas construir uma frota maior que a francesa pode deixar Sarkozy em maus lençóis...

A predileção de Lula pelos aviões franceses existe desde o primeiro mandato

-Outro argumento é de que somente a proposta francesa inclui transferência total da tecnologia. Balela. Quem fala somente em transferência parcial são os EUA, o que já era esperado. A Suécia aceita não somente a transferência total de tecnologia, como também investir 175% do valor do contrato no Brasil, estabelecendo aqui parte da produção deste modelo. Na prática, criaríamos uma SAAB brasileira. Aí, os petistas dizem que partes importantes do caça sueco, como o motor e o software, são americanas, e que os EUA vetariam a transferência dessa tecnologia para o Brasil, alegando razões militares estratégicas. O PT, quando não tem resposta, sempre recorre às tais razões estratégicas. Usou-as nos anos 90, quando foi contra a privatização da EMBRAER, que acabou vendida, tornando-se uma das 10 maiores da aviação comercial mundial. Hoje, os mesmos EUA que querem nos vender os caças da Boeing também são os maiores compradores de jatos comerciais da EMBRAER, enquanto o avião presidencial brasileiro é...adivinhem: um Airbus francês.

Lula estaria dando ouvidos demais a Bush?

-Outro argumento do governo contra o ranking feito pela FAB é de que os Gripen NG da SAAB não existem, ainda estão no papel, portanto não possuem eficiência comprovada. O Brasil tem pressa, precisa dos caças logo. Lula deve ter "acordado invocado e ligado para o Bush", que encheu a cabecinha do brasileiro de paranóias, convencendo-o da necessidade imediata da compra. Deve haver alguma guerra iminente por aí. Esses cinco bilhões de dólares a mais não são nada para Lula, mas podem "tirar muito brasileiro da merda". O presidente, que anda com a cabeça cheia, deveria reconsiderar a opinião técnica da FAB, pois além de economia, o Brasil poderia, pela primeira vez, participar ativamente do desenvolvimento de um caça supersônico.

Carregando coisas demais no momento, o presidente deixou a questão dos caças para a semana que vem

-Nelson Jobim, nosso ministro da defesa, tenta negociar com a FAB um novo relatório, com texto que não seja tão taxativo, pois isso facilitaria a opção do presidente pelos Rafale. Do jeito que o relatório técnico está, causará problemas para Lula. Nem mesmo o fato de a Dassault deter quase 1% das ações da Embraer pesou a favor da empresa francesa. Isso porque somente a Suécia se comprometeu, em sua proposta, a adquirir os Tucanos e os KC-390, aviões militares produzidos pela Embraer, o que também ajuda o Brasil. Além disso, Hakan Jevrell, vice-ministro sueco da defesa, já sinalizou com uma atrativa linha de crédito caso o Brasil opte pela proposta da SAAB, que, repito, é a mais econômica de todas.

-Os técnicos da FAB preferem os aviões suecos, e o alto comando da aeronáutica tem queda pelos Boeing. Já Jobim, francófilo assumido, quer ajudar a Dassault que, mesmo finalista em diversas concorrências, tem tido dificuldades para encontrar compradores internacionais para seus Rafale. Lula, na verdade, ainda não se inteirou dos últimos acontecimentos, pois anda muito ocupado em reuniões militares na base de Inema, na Bahia, e no Forte dos Andradas, no Guarujá, como mostram as fotos abaixo:

Avião pra quê? Lula só precisa, nesses primeiros dias do ano, de um barco

É preciso entender que não se vai gastar os cinco ou dez bilhões em caças agora, à vista. O governo financiará isso a longo prazo. Portanto, a escolha de Lula afetará provavelmente a próxima geração de brasileiros. Você compra um carro mais caro só porque seu amigo está vendendo? Creio que não. Ainda mais se for para o seu filho pagar a conta. Lula está pisando em cima de três princípios da administração pública (moralidade, publicidade e eficiência) ao contrariar a FAB e privilegiar os franceses. Também vale lembrar que o Brasil já compra helicópteros e submarinos militares da França, portanto seria prudente não concentrar, em um fornecedor só, compras tão estratégicas. Da mesma forma que, durante a ditadura, tínhamos ojeriza à intervenção militar em educação, cultura e, principalmente, na política, Lula deveria ser sensato e levar em conta o ranking técnico elaborado pela Força Aérea Brasileira, que coloca os caças franceses claramente em último lugar.