O Rio, sabemos, é a cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos. A beleza continuará sempre por lá. O caos, por sua vez, parece já ter cumprido seu tempo de purgação e ido direto para o inferno. Ao menos é o que promete a prefeitura com seu novo órgão, cujo nome remete aos anos de chumbo da ditadura. Surgiu na cidade a tal SEOP - Secretaria Especial da Ordem Pública, que colocará em prática uma das bandeiras de campanha do prefeito Eduardo Paes.

Por onde começar um projeto tão ambicioso, que promete, dentre outras proezas, tirar das ruas mendigos e trombadinhas? Claro, por onde dê para inglês, ou alemão, ou francês ver: a praia. Nos quiosques, não dá mais pra mexer. O projeto - da gestão anterior - foi paralisado. Os novos quiosques, de metal e vidro, custaram caro e foram ocupados por grandes empresas como Coca-Cola e McDonald's. Resultado: o chope por lá custa quase o dobro do preço praticado nos antigos, a cujos funcionários só restou a opção de virarem barraqueiros de praia. Isso até 2009. Aí, veio o tal "choque de ordem", que limitou o número de vendedores. Só no trecho entre o Arpoador e o Leblon, eram 300. Hoje, são 193. Conclusão: só nessas 3 praias, o Rio, uma cidade quase não afetada pelo tráfico de drogas, ganhou 107 novos desempregados. Que, provavelmente, residem muito próximos às bocas de venda de drogas dos morros. Se os gerentes do tráfico forem espertos, ganharão alguns novos vendedores de praia. Haja apito...

Mas não é só isso. O número de cadeiras e guarda-sóis para aluguel também foi limitado. Quem tomar todas e acordar tarde vai ter que sentar na areia mesmo. As barracas dos vendedores também foram padronizadas. Teria a venda das novas barracas sido feita por uma empresa só? Não sei. São Paulo viveu experiência parecida, quando houve a padronização das bancas de jornal. Lembram? Uma tal de W-Sita, não por acaso o maior fabricante de bancas do país, era a única autorizada pela prefeitura paulistana a fornecer as mesmas. Se não me falha a memória, deu em CPI...vou pesquisar nos jornais. Desde que eu possa comprá-los com o jornaleiro de praia mais popular do Rio de Janeiro:
O choque de ordem carioca inclui aumento expressivo no número de fiscais. Eram vinte, já são 143 e a prefeitura fala em um contigente de até duas mil pessoas, fiscalizando tudo o que se faz ou se vende nas praias. A idéia também é equipar a guarda municipal com armas leves, como balas de borracha, para conter os que insistirem em desobedecer a lei. A SEOP também fala em adquirir armas elétricas e químicas. Armas químicas? Eduardo Paes que se cuide! O próximo presidente republicano dos EUA já tem motivo para invadir Copacabana...
Camarão? Agora só em lata."Pida"já o seu...
O espetinho de camarão foi proibido. O côco verde também, mas depois a SEOP voltou atrás. Caipirinha? Só da industrializada, que, se fosse boa mesmo, faria o mesmo sucesso que a Sagatiba faz pela Europa. Alimento em palito? Esquece. O sanduíche natural da praia também morreu. De hoje em diante, só o artificial, à venda em Copacabana nos quiosques do McDonald's ou do Bob's. Cocada? Só se for de fábrica, com embalagem constando o CNPJ do fabricante e seu registro na ANVISA. O carioca vai emagrecer. Não pode mais comer cocada na praia. E esse tiozinho aqui, que entende tudo de cocada diet, vai perder o emprego:
Frescobol, agora, só depois das 17 horas, assim como qualquer outro esporte com bolas. As crianças também pagarão a conta: o Baixo Bebê, barraca de brinquedos que desde os anos 90 marca presença no Leblon, na altura da Rua Venâncio Flores, também foi fechada pela SEOP. A publicidade nas cadeiras e guarda-sóis foi vetada. O Rio, portanto, já tem sua Lei CidadeLimpa. Com certeza, tirar a poluição visual da praia é muito mais efetivo que tentar tirar os outdoors das ruas. Paes está certo. O carioca ainda precisa se manifestar, deixando claras todas as suas indignações...

O Rio, terra de Tim Maia, o cantor, é uma das mais criativas capitais do Brasil. Talvez porque seus cidadãos menos favorecidos tenham que "dar nó em pingo d'água" para sobreviverem. O "choque de ordem" do prefeito do Rio é um americanismo. Eduardo Paes quer praias como as da Califórnia, ou da Flórida: repletas de proibições. Os criativos vendedores de praia, povo sofrido e batalhador, já fazem parte do folclore nacional. A imposição pelo governo dos equipamentos a serem utilizados onera a categoria, e a redução do número de profissionais não só provoca desemprego como também limita as atrações do show de talentos a que assistimos, todos os finais de semana, nas areias cariocas. Como este do Tim Maia, o vendedor de picolés:

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