Foi divulgada hoje a licitação, iniciada em 17 de dezembro último, para a compra anual da despensa do casarão oficial da presidência do Senado. Na lista, estão 72 quilos de mussarela, 144 de queijo minas e 180 de presunto, suficientes para fazer um mistão-quente com mais ou menos o tamanho do bolo de aniversário da cidade de São Paulo. Tá achando pouco? Pois saiba que a conta do açougue senatorial beira os 80 mil reais e inclui, entre outras carnes, 360 quilos de filé mignon, 540 de picanha, 240 de camarão e 180 de linguiça. Segundo dados do Estadão, dá para um mega-churras com 12.500 convidados. Para os fãs de massas, serão comprados 240 pacotes de espaguete e talharim. Quem achar difícil enrolar a massa com o garfo poderá recorrer aos 60 pacotes de penne fresquinho. Para a sobremesa, 72 latas de goiabada e 180 potes de sorvete, deliciosamente cobertos com 240 latas de leite condensado.
Ficou com água na boca? Pois eu fiquei com nojo, e o leitor também sentirá náuseas quando se lembrar que Sarney NÃO mora na residência oficial, e sim numa casa próxima (por sinal, comprada de Joseph Safra e não declarada pelo cappo em seu IR). Mas toda a comilança ocorrerá em possíveis eventos ou reuniões realizados naquela mansão. Vale lembrar que 2010 é ano eleitoral, quando Brasília fica às moscas a partir de agosto, início da campanha política.
Além dos privilégios do rei, para a burguesia (os 6 mil servidores do Senado, dos quais 181 ocupam diretorias) será construída, pela bagatela de R$ 1,9 milhão, a nova praça de alimentação daquela casa legislativa. Em qualquer organização privada do mesmo porte, empresas de catering ou cadeias de restaurantes se cotizariam e arcariam com o custo dessa praça de alimentação, baseado no retorno financeiro garantido pela demanda de 6 mil refeições diárias. Ou talvez 12 mil, já que a casa gastou quase 4 milhões de reais com horas-extras em 2009, indicando que os funcionários do Senado Federal andam trabalhando tanto que precisam jantar todos os dias por lá.
Acabou? Não, tem mais: a utilização pelos senadores das cotas de passagens de 2009 ao longo de 2010 foi autorizada por Sarney, apesar da farra turística com dinheiro público que veio à tona no início do ano. Junte-se a isso a triste constatação de que Sarney só cairá quando morrer e não é difícil concluir que somos todos reféns de um grupo de privilegiados que, embora representado principalmente pelos 81 senhores e senhoras eleitos pelo voto direto, é composto em sua maioria por concursados e indicados que recebem benefícios superiores aos dos mais graduados executivos de empresas privadas. Muitos deles, aliás, formados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), da qual o autor deste texto é egresso. Por sinal, justamente do curso de Administração Pública, que deveria formar gestores habilitados a reduzir a gastança que toma conta das casas legislativas brasileiras.

Pois bem: como o leitor deve se lembrar, a FGV foi contratada por Sarney para sugerir medidas, dentre outras, que pudessem reduzir o gigantesco número de diretores da casa (não existe uma só empresa com 181 diretores em todo o mundo). A FGV enviou 20 consultores para o Senado, onde passaram dias, chegando ao relatório que sugeria o corte de dois terços das diretorias, além de outras 500 sugestões dos próprios funcionários que, misteriosamente, não foram divulgadas pela imprensa. Sarney recebeu o relatório final e nada fez. Já a FGV recebeu R$ 250 mil pelo serviço e seus consultores foram embora, quietinhos, para São Paulo, provavelmente também cientes de que nada ocorreria. É que eles já sabiam que, em 1995, quando Sarney também era presidente do Senado, a mesma FGV foi contratada, desta vez por quase R$ 900 mil, para reestruturar o Senado. Que, na época, tinha bem menos diretorias.
Teria o aumento de diretorias sido sugerido pela FGV em 1995? Não sei. Mas creio que, certo mesmo, seria a FGV devolver os R$ 250 mil do ano passado ao erário e nunca mais aceitar prestar consultoria ao Senado. Envolver-se numa palhaçada dessas acaba manchando o nome da instituição. Não que aquela fundação tenha reputação ilibada: corre à boca pequena, entre alunos que por lá passaram, que famoso financista público, professor de carreira da casa, com as três últimas letras de seu nome semelhantes à deste escriba, se aproveitava da ingenuidade de pequenas prefeituras dos confins da Amazônia, onde o Diário Oficial da União chega com três ou quatro dias de atraso, e contatava as mesmas se passando por funcionário do Ministério da Fazenda, solicitando "gratificações" pela liberação de verbas que ele levantava lendo o próprio Diário, do conforto de seu escritório em plena Avenida 9 de Julho, na FGV. Algumas incautas prefeituras caíam no golpe, que rendeu ao tal professor o nada eufemístico apelido de "ladrão".
Se o rumor descrito acima é verdadeiro ou não, jamais saberemos. Assim como jamais saberemos se é verdadeiro o boato publicado pelos jornais, durante a crise do Senado, de que o gabinete de Agaciel Maia, diretor geral do Senado demitido em 2009, possuía uma escada-caracol que levava a uma pequena "sala dos pecados", com sofás, camas, TVs com filmes pornôs, preservativos e lenços de papel, onde senadores e diretores satisfaziam seus mais secretos desejos. Talvez o Senado e a FGV sejam mais parecidos que imaginemos. Talvez não. Não cabe a este pobre aspirante a jornalista investigar a fundo esta questão.

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