sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A militância petista e as Estatais

A militância petista adora as estatais brasileiras. Muita gente gosta...
Eu não o conheço o Will Guedes, mas passei os últimos 10 dias conversando sobre economia e política com ele e, no final, deu nisso que vocês estão lendo. O Will Guedes é meu colega de Twitter.  Eu nunca o vi. O Twitter trouxe para a realidade o fenômeno do "desconhecido íntimo". Eu conheci o Will Guedes porque nós dois éramos seguidores de alguém em comum. Will Guedes é um millitante petista. Do seu computador ou do IPhone, ele posta suas considerações próprias sobre política e economia, mas também "retuíta" observações de demais petistas sobre tudo. Chamou-me a atenção, particularmente, uma frase do Ricardo Berzoini que o Will Guedes passou pra frente. Nela, o presidente do PT comemorava a lucratividade da Petrobrás, que só sobe, e ironizava sobre suas razões. "Deve ser o tal aparelhamento das estatais", escreveu. Eu contestei isso, porque tenho certeza que um dos três maiores desejos do PT é  o aparelhamento do Estado. Aí, o Will Guedes rapidamente me identificou como um tucaninho neoliberal, daqueles que decoram a cartilhinha do PSDB. Ledo engano. Quem leu a cartilha do PT muito bem foi ele, tanto que, na mesma hora, me jogou a "Arapuca Alckmin" e perguntou se eu apoiava a venda de Caixa, BB, Correios e Petrobrás. Para o PT, defender a privatização de quaisquer dessas empresas que aparecem na jaqueta do ex-governador, na foto acima, é pecado mortal, e como o partido sabe que demonizar as privatizações rende votos neste triste Brasil, tentam rotular qualquer um que questione as estatais como "vendilhão". Expliquei pro Will Guedes que não sou do PSDB, não quero ser político e apenas escrevo sobre qualquer assunto neste pobre blog, às vezes. Assim, @adamsmith e @engels continuaram "tuitando" e trocando idéias sobre o governo. Will Guedes é um petista moderado e não chorou com a quebra dos monopólios estatais nos anos 90. Mas acha que a presença estatal na economia deve aumentar. Eu acho que deve diminuir.  Muito. Hoje, quase 50% da força de trabalho brasileira é pública. Will Guedes acha pouco. O Brasil de 2009 tem 108 estatais. Will Guedes acha pouco. Ele também acha o Estado um excelente gestor, tanto que várias estatais brasileiras são só sucesso, ultimamente (várias = Petrobrás + CEMIG). Eu acho o Estado um horrendo gestor, e tenho minhas razões:
  • Comparemos as rodovias estatais às privadas. O PT acertou quando demonizou o preço do pedágio. Pagar pedágio é ruim? Claro que é. Mas eu pergunto ao Will Guedes quantas pessoas as concessionárias das rodovias privadas empregam, e não sei se ele tem a resposta. O PT sabe que a privatização também emprega, mas fica quietinho porque demonizar as privatizações rende votos. Enquanto isso, a única coisa que a DERSA (estatal que administra algumas rodovias de SP) conseguiu deixar parecida com uma rodovia privada foi o sistema Ayrton Senna/Carvalho Pinto. Pra quem não se lembra, a DERSA era onde o pai da Suzane Richthofen trabalhava. Os jornais já publicaram boatos de que a briga civil entre os irmãos Suzane e Andreas Richthofen seria motivada por uma pequena quantidade de milhões de dólares que os Richthofen pais mantinham numa conta na Suíça, num grande esquema de corrupção, mas depois disso o caso ganhou segredo de justiça e eu nunca mais soube de nada. Will Guedes acha o Estado um bom gestor. Eu acho que o Estado mata as estatais a pauladas.
  • A última jóia dos petistas xiitas são os Correios, que ainda detêm monopólio do serviço de entrega de cartas e encomendas no Brasil. Deve ser a tal soberania nacional. Por que uma companhia privada tipo UPS ou Fedex não pode operar dentro do Brasil, concorrendo com os Correios? Em alguns países há meia dúzia de concorrentes com os correios locais que, façamos justiça, costumam ser estatais por razões adversas. Will Guedes acha que o Estado, um excelente gestor, gere bem os Correios. Eu acho que não, e lembro a ele que foi por causa dos Correios que o Roberto Jefferson resolveu jogar merda no ventilador, esclarecendo como funciona a política no Brasil.
  • A onda de fusões entre bancos já terminou, mas até hoje os bancos oficiais ficaram parados. Só em 2009 o BB conseguiu autorização do governo para comprar outros bancos. O Brasil já teve um banco estatal por unidade da federação. Em SP, eram dois. O Rio tinha o Banerj, que foi comprado pelo Itaú, que depois comprou o Unibanco e se tornou o maior banco do país, passando o BB, fazendo com que finalmente o governo o autorizasse a comprar outros bancos. Não adianta: o Estado é um péssimo gestor. O Will Guedes não se incomodaria se SP tivesse um terceiro banco oficial. A mim, incomodaria. É que o Will Guedes ainda era criança quando o Banespa quebrou na mão de Quércia, do PMDB, que apóia Lula. Quem se lembra da famosa frase de Orestes: "quebrei o Banespa, mas elegi meu sucessor...". Alguém? Não. A memória brasileira só pode ser um produto Microsoft: não dura quatro anos sem você ter que formatar. Sei lá, defendo a fusão de BB, Caixa e tudo o mais num só "Bancão do Brasil". Sem uma só demissão, os próprios bancos oficiais economizariam milhões em despesas para injetar no mercado em épocas de crise, que é justamente o importante papel dos bancos oficiais, ponto no qual eu e o Will Guedes concordamos. Nos bancos privados, é assim. O Itaú comprou o Unibanco pensando em economia. Mas talvez seja interessante para o governo - que o Will Guedes considera um excelente gestor - ter duas marcas bancárias. Gera empregos. Nas agências de publicidade de Duda Mendonça, ou de Marcos Valério, inclusive.
  • As telefônicas foram o filé da privatização tucana e todo mundo sabe que rolou maracutaia a rodo. O PT bate direto nessa questão, fala em "privataria", demonizando mais uma vez as privatizações. O próprio Will Guedes só "tuíta" de seu IPhone porque a Vivo não é mais a Telesp Celular. Will Guedes tem saudades da Telesp Celular gerida pelo Estado? Deve ter, se ele também apoiar a criação da "Banlabrás", estatal de internet banda larga que o PT planeja criar. O PMDB apóia, com certeza. O PMDB adora estatais. Os namorados de netas de senador também.
  • Mesmo aquilo que dificilmente sairá do papel ganha o carinho do estatismo petista. Se o "Trem da Dilma" virar realidade, nosso Brasilzão ganhará a "Trembabrás", ou ETAV, que o PT quer criar para gerir o trem-bala Campinas-Rio. O PT de Will Guedes tem saudade da FEPASA e seu governo já disse que o trem custaria 15 bilhões de reais. Depois pensou melhor e aumentou para 34 bilhões. Eu não faço a menor idéia se essa mudança no orçamento tem alguma coisa a ver com o PR de Valdemar Costa Neto, que controla o Ministério dos Transportes. E, sinceramente, acho que o dinheiro do trem-bala resolve o problema dos aeroportos - orçado em R$ 4,7 bi - eliminando a necessidade de um trem-bala.
  • Eu disse aeroportos? Pois deu essa semana no jornal: o governo desistiu de privatizar a Infraero, aquela competente empresa que desde 2006 promete um novo Viracopos, um novo Cumbica e mais controladores de vôo. Montou umas continhas de chegada pra provar que, se a Infraero for vendida amanhã, não dá tempo do novo dono terminar a reforma dos aeroportos. E quer pedir dispensa da "Lei da Besta", ou seja, de licitar as obras, alegando que não dá mais tempo de licitar nada para entregar até as Olimpíadas. Talvez seja este o mesmo problema dos aeroportos de Vitória ou Macapá, com obras embargadas pela justiça por suspeita de corrupção. O Estado é um excelente gestor de aeroportos. Para os passageiros do Aerolula.
  • A Petrobrás que tanto orgulha Will Guedes será tema da campanha no próximo ano. Dilma dirá que seu concorrente venderá a Petrobrás. O PT sabe que não, mas dizer isso rende votos. Nenhum presidente venderá a Petrobrás, outra empresa que não precisa respeitar a lei 8666. Quanto dá pra fazer de caixa 2 numa parada dessas? Sem tempo, fiz uma pesquisinha vagabunda - no Google mesmo - e coloco abaixo o lucro por funcionário da maior petrolífera privada do mundo (Exxon), comparada com a maior estatal (BP), com a nossa Petrobrás e com a Gazprom, estatal russa. A Gazprom gera 432 mil empregos na Rússia, e aqui está o resultado disso (clique para ampliar):
  • A Gazprom brasileira tem nome. Ou quase isso. A Gazprom brasileira, que o PT quer criar para gerir o pré-sal, era a PetroSal. Só que apareceu um empresário maranhense que já tinha registrado esse nome. Não que Sarney tenha algo a ver com isso, mas enfim, pegaram, e aí o nome não será mais Petrosal. Chamemos a Gazprom  brasileira de "Présalbrás", então. Em tese, a "Présalbrás" é uma segunda Petrobrás, mas só para o pré-sal. O PT tentou desinfetar a cadeira do genro de FHC, quando ele deixou a ANP. Mas o PT não é o Jânio. Não conseguiu. Então, afirma que a ANP não pode gerir o pré-sal e vem com a idéia da "Présalbrás". O PMDB apóia a criação da "Présalbrás", e olha para ela com o apetite de um vira-latas faminto apreciando um frango de padaria no forno "televisão de cachorro".
Não, Will Guedes, o Estado não é um bom gestor. Você diz isso porque o Estado atual, o PT, sabe que isso rende eleitoralmente. O PT só cita a "privataria" tucana porque o Estado é um péssimo gestor, assim como os tucanos só pediram a CPI da Petrobrás porque o Estado é uma droga de gestor. O tal aparelhamento das estatais, que você e Berzoini ironizam, existe sim, é coisa de todos os partidos, alimenta a corrupção e é o motivo do meu entusiasmo com a gestão privada dos recursos públicos não-estratégicos do Brasil, experiência de sucesso que o PT tanto demoniza. Porque rende votos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Uma visita aos velhinhos solitários



Fui visitar o Asilo dos Velhinhos, ou Lar San Raphael, numa atividade do meu curso de jornalismo. Mas já havia feito isso outras dezenas de vezes. Na época da escola, todos os anos íamos ao asilo levar ovos de Páscoa ou presentes de Natal para os idosos. Creio ter ido pela última vez em 1988. E depois, hoje. Surgiram algumas lembranças da infância ao ver os modestos, porém belos jardins, a capela, a gruta, os velhinhos mais doentes todos agrupados numa sala só. Mas o mais legal foram as conversas com os velhinhos.

Já na entrada, ao passar perto do refeitório, o cheiro forte de urina denuncia estarmos na ala dos mais enfermos. Não há sujeira. Tudo é muito limpo, apesar do odor desconfortável, que vem das roupas dos internos mesmo, ou de suas camas. Ao lado, uma grande sala de TV, onde diversos idosos assistem ininterruptamente à programação vespertina. Muitos deles não fazem a menor idéia do que estão vendo ali. Uma boa parte está quase em estado vegetativo. Peço então, à enfermeira Rose, para conversar com um ou dois internos. “Só um minutinho que eu vou arrumar alguém com a cabecinha bem boa pra falar com você”, diz a rechonchuda moça. Alguns segundos depois sou apresentado ao primeiro e, aparentemente, mais animado de todos.


Sr. Mauro, incrivelmente lúcido e Sr. Edgar, o engraçadinho


Edgar Evangelista da Cruz tem 74 anos e já foi jornaleiro, vendedor de livros e feirante. Morou no Ipiranga, em São Paulo, até 1947. Está em Prudente há mais de dez anos, quando a família mandou ele pra cá. Pergunto sobre filhos e ele responde “eu não tenho, minha mulher tem”, diz brincando. Gozador, ele assume ter tido 10 herdeiros (um dos quais já morto) com 3 ou 4 amantes. Nunca se casou. "Mas dei uma casa pra cada mulher minha, agora elas que se cuidem", completa. Pretende sair do Lar San Raphael logo. “Em poucos dias, consigo quatro meninas pra trabalhar na feira comigo e começo a ganhar 80 reais diários imediatamente”, diz. Pergunto se Edgar teve algum vício e ele então assume ter sido um grande beberrão. "Considero-me um vagabundo", diz rindo.


É hora da enfermeira chegar com o Mauro Tributino dos Soares, 69. “Esse aí tem tributo só no nome, porque na verdade ele nunca pagou imposto nenhum!”, diz Edgar sobre Mauro, um senhor extremamente lúcido, aparentando saúde de ferro e que cuida da horta da instituição, onde promete me levar. Despedindo-se, Edgar ainda faz umas palhaçadas chamando a atenção: “Vai com Deus, sonha comigo mas não cai da cama!”, encerra ele.

Caminhando com Mauro e uma enfermeira pela ala feminina do asilo, fui me recordando sobre quão grande é o prédio da instituição. A arquitetura dos anos 60 está presente em cada detalhe do asilo, com seus azulejos em cores com tonalidades leves e janelões de ferro maciço. Uma pequena criança já entenderia onde ficam os "meninos"e as "meninas": a ala feminina tem pisos e revestimentos rosados, enquanto a masculina usa azulejos com num tom entre o azul e o verde. As paredes do prédio principal têm revestimento cerâmico imitando tijolos aparentes, enquanto as da capela são feitas com mosaicos de pedrinhas.

Dona Eliza, que preferiu esconder a idade

No caminho, sou apresentado a Elisa Martins Vieira. “Tenho uns setenta e poucos anos”, diz, aparentemente escondendo a idade. Paraibana, veio para Prudente com oito anos e viveu aqui e em Regente Feijó. Está numa cadeira de rodas e não anda desde os 30, embora afirme sempre ter trabalhado em fábricas de doces. Também contou uma confusa história onde teria feito um “pauzinho” com um cabo de vassoura, que bastou para que ela pudesse se locomover sozinha por muito tempo. “Ia ao banco, ao correio, no mercado, sempre com meu pauzinho, e não precisava da ajuda de ninguém”.

Dona Marilena, que escolheu viver no asilo

Outra que se apresenta é Marilena de Alcântara, aposentada de 63 anos e dona de uma incrível lucidez. Ao contário dos demais, Marilena escolheu morar no Lar S. Raphael. Solteira, sempre viveu em Dracena, a 80 km de Prudente, onde cuidou da mãe, falecida em 2007. Professora do Estado, aposentada em 1992, Marilena diz ter uma vida agitada fora do asilo. “Saio sozinha e vou ao shopping sempre, mas durmo cedo, logo depois do SPTV, pois às seis da manhã já estou de pé, me preparando para a missa”, conclui.


Sr. Mauro e seu passatempo diário: a horta

O terreno atrás do prédio principal, onde fica a horta de que Mauro cuida, surpreende pelo tamanho. Não é difícil imaginar que a instituição poderia fazer um bom dinheiro vendendo seu terreno e mudando-se pra um local mais afastado. O espaço vazio é maior que o dobro da área plantada existente, que produz côco, banana, mandioca, milho, alface, almeirão, rúcula, couve, gengibre, pimenta, cebolinha, chuchu, chicória e vagem. “E tem esse louro aqui, que o Agripino deu”, diz Mauro, levando-me até uma gaiola onde dois papagaios se fartam de frutas de todos os tipos. “Cuidei desse louro desde pequenino, estava todo pelado, tratei-o com fubá de milho e ele hoje está gordão”, ri Mauro, apresentando-me outro idoso, hoje responsável por tratar da ave.

Insisto em saber por que Mauro, tão lúcido e saudável, está num asilo. Enquanto caminhamos, ele vai detalhando sua história de vida. Nascido em Floresta do Sul, distrito de Presidente Prudente, foi morar em São Paulo com 16 anos e nunca mais voltou. Trabalhou algum tempo na feira, mas seu ofício mais longo foi o de zelador. Cuidou de diversos edifícios em São Paulo, dentre os quais cita o antigo endereço de Antônio de Barros, irmão do governador Adhemar de Barros. "Já vi gente graúda subindo naquele elevador, como José Serra, Jânio Quadros e o ex-prefeito paulistano Faria Lima". Separou-se em 1980. "Bebia muito, e a família se afastou", conta Mauro, alcoólatra durante 53 anos, dois litros de cachaça diários por nove deles. Dos 6 filhos, afirma ter mantido contato apenas com Sandra Regina, que “trabalhou na TV Manchete e foi mandada embora”, afirmação que denuncia anos sem contato também com esta filha. "Os outros 5, não vejo há 29 anos" termina, com os olhos marejados.

De volta à na portaria, converso com Irmã Helena, uma das chefes da instituição. Colombiana de Bogotá, nasceu em 1935 e morou em São Paulo de 68 a 85, quando se transferiu para Presidente Prudente. Considera o Brasil um país espetacular, com um povo muito mais solidário que o colombiano. Pergunto sobre as finanças do lar, e ela, feliz, me conta que a instituição vive sem dívidas e não passa necessidades. “São 100 leitos, todos ocupados. Quem é aposentado tem um certo percentual retido para pagar as despesas, mas quem não pode pagar é tratado com o mesmo amor e carinho”, frisa. Citou diversas empresas que doam carne, frango, café, alimentos em geral. “O Agripino e a Dona Anna são nossos anjos, sempre mandam qualquer coisa que falta por aqui, são pessoas benditas”, ouço ao perguntar sobre o político prudentino. “Dona Anna cedeu um enfermeiro de alto padrão à instituição, e a Unoeste sempre ajuda quando fazemos campanhas de arrecadação”, continua.

Segundo Irmã Helena, a principal causa de novas vagas na instituição é o falecimento dos internos atuais. "O atendimento dos hospitais, mesmo os públicos, aos internos, é excelente. Hoje temos dois deles na Santa Casa. Não sabemos se sobreviverão. Em maio, perdemos 11 idosos. Foi muito triste. Mas em média, temos um falecimento por mês”, conta. Mais triste ainda é saber que a lista de espera para uma vaga no Lar San Raphael possui 23 nomes. São 23 velhinhos que estão aguardando a hora de partir para dar vaga na fila a outros, sem esperanças muito diferentes...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Triste Infância da Geração Anos 80 Prudentina sem o Bozo


Quem já morou em Sampa vai sacar: existe uma diferença cultural gigantesca entre a geração anos 80 paulistana e a prudentina. Não, não vou falar mal de sertanejo de novo. Falo de uma diferença televisiva. Uma diferença Sublime Bem Tamanha. Uma diferença Simples, Boba, Tacanha. Uma diferença Super Bacana, Tio! Se você não entendeu minha poesia concreta, a diferença é o SBT - Sistema Brasileiro de Televisão.

Eu não assisti ao SBT na infância. Vi o Sílvio jogar aviãozinho no
Topa Tudo por Dinheiro, pela primeira vez, aos 15 anos. Foi quando o SBT chegou em Prudente, em 1990. Eu não conseguia acreditar naquilo. No começo achei cruel aquele bando de desesperadas correndo atrás de uma cédula de não sei qual moeda (mudava quase todo ano). Depois ria, muito. Aquilo era uma bizarrice no ar há anos e eu não conhecia. Sabia quem era o Sílvio, que ele era camelô, já tinha assistido ao SBT quando ia a São Paulo, mas nunca o Topa Tudo.

E o Bozo? O Bozo pra mim era apenas um palhaço de um canal que não passava aqui. Eu me lembro quando um amigo da faculdade foi me dar seu telefone e eu simplesmente anotei: 236-0873. Era o telefone do programa do Bozo. Ele se contorcia de rir. Outro encapava o caderno com um mosaico de fotos de pessoas como Hebe, Moacir Franco, Wagner Montes e Flor. Todo mundo ria daquilo. Eu não entendia. Outros dois, que trabalhavam na TV, foram, já adultos, simplesmente jantar no Dalmo do Itaim com ele: Bozo, vestido a caráter, e dando depoimento sobre seu vício em cocaína e sua conversão à sei lá qual religião. Foi a noite mais sensacional da vida deles. Eu já conhecia o Bozo, mas ele não fez parte da minha infância. Não consegui ver tanta graça. Crescer sem o Bozo pode ser triste...

Metade dos meus amigos paulistanos imita o Sílvio Santos. A outra metade não imita porque não sabe. No começo eu ria, mas depois me irritava: "Caramba, eles só sabem imitar o Sílvio?" - pensava. Depois de anos em Sampa, o SBT se incorporou à minha cultura. Entre meus colegas da FGV, é normal começar a redigir um e-mail com "Ma ooooeeeeeammmm". Entre meus amigos que não são da faculdade, sempre sai um "maarrrr vai pra lá, vai pra lá, hihiiii". Em qualquer festa, quanto mais a gente bebe, maior a chance de cantarmos a música de abertura do Show de Calouros. Imitar o Sílvio virou uma instituição paulistana. Não acontece com a mesma freqüência por aqui. Talvez na geração anos 90 seja assim. Na minha, não é.

Lembrando melhor, meu primeiro contato com o Sílvio foi na eleição de 89. Lembram? Um tal de Corrêa, candidato de um partido nanico qualquer, simplesmente cedeu, a menos de um mês da eleição, sua candidatura a Sílvio - que foi impugnada pelo Supremo dias depois. Mas deu tempo para Sílvio figurar no horário eleitoral, explicando um curioso detalhe: quando o apresentador entrou na corrida ao Planalto, as cédulas eleitorais já estavam impressas. É ridículo, a partir dos 80 segundos do vídeo abaixo, Sílvio explicando que, para votarem nele, teriam que votar no Corrêa, tirando um enorme X imantado do bolso e colocando sobre o nome do nanico. Vejam:




Um dia, terei 50 anos. E o Sílvio, uns 110, pois rola a lenda que ele dorme no formol. Rolava a mesma lenda sobre a Dercy, mas ela morreu. Um dia, Sílvio Santos morrerá. Vai demorar décadas, mas o hábito de imitar o Sílvio vai acabar. O SBT também vai acabar quando o Sílvio morrer. Será vendido? Provavelmente. Para quem? Pode ser até pro Bispo. O que é a pior das hipóteses, pois com certeza a programação sofreria mudanças consistentes.

Mas duvido que tirem o Chaves da hora do almoço...

domingo, 27 de setembro de 2009

McDonald's versus Lanche de PP




Mc Donald's: quando eu era pequeno ia bastante pra Sampa ver meus primos e, como qualquer criança, me acabava por lá. Quem nunca fez isso na vida? Prudente não tinha McDonald's. Quando abriu um em Campo Grande, mesma coisa: toda vez que ia pra lá, era obrigatório. Acho que o próximo foi em Londrina, e as viagens em busca de calorias continuaram. Depois veio a vez de PP. Fui algumas vezes. Era só atravessar a rua. Parei. Perdeu a graça.

O Mc Donald's não faz só sanduíches. Também ajuda a calcular o índice de valorização do euro, do iene e até mesmo do real, em relação ao dólar. É o famoso índice Big Mac. Há uma versão tupiniquim desse índice: em Sampa, muitos amigos que nunca tinham ouvido falar de PP, para ter uma idéia do tamanho da cidade, perguntavam: "Tem Mc Donald's ?". A comida do McDonald's definitivamente faz mal. Pro cérebro do paulistano.

Mas faz bem pior pro estômago e, se aqui em Prudente todo mundo faz aquela velha comparação entre os lanches do McDonald's e os de carrinho, é isso que eu vou explorar. Todo mundo costuma elogiar o lanche de Prudente e criticar o McDonald's . Dizem que, além de mais saudável, o lanche de Prudente é maior. Maior ele é, mesmo. Já no quesito saúde, assusta os melhores cardiologistas.

Enquete por e-mail entre alguns amigos para saber qual o lanche mais popular de Prudente resultou numa unanimidade: ganhou o Jardim, lanchonete amarela, como o McDonald's, localizado na Avenida Coronel Marcondes, próximo à rotatória do Parque do Povo. O proprietário, Carlos Oshima, de 50 anos, comprou a lanchonete de seu irmão. A família é dona do ponto há quase 30 anos, e vende em média 100 lanches por dia nos finais de semana e 70 nos dias úteis. Mas, no verão, metade do seu faturamento é com sucos de frutas tropicais. "Nada dessas frescuras de cupuaçu e açaí, não, mas temos todas as frutas conhecidas", completa Carlos. O Athia, maior velório de Prudente, a uma quadra do local, serve de termômetro para a lanchonete. "Quando morre pobre, a gente só vende hot dog. Quando é figurão, a gente já vê os carrões estacionando aqui na avenida e sabe que vai vender bem", explica o proprietário.

"Meu lanche não é esses lanches de vila, não!" - reagiu Carlos, ao saber que eu pretendia comparar nutricionalmente o seu sanduíche mais popular com o do Mc Donald's. Talvez já soubesse o que eu descobri: na rede americana, você gasta o dobro, mas em calorias pode comer quatro vezes mais. Cada Big Mac, segundo a musiquinha, tem dois hambúrgeres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles, no pão com gergelim. Segundo sua tabela nutricional, são 504 calorias. Já o X-Tudo do Jardim leva pão (sem gergelim), queijo, um ovo frito, três folhas de alface, seis fatias de tomate, um hambúrger, maionese, 200 gramas de calabresa e 100 de bacon, totalizando inacreditáveis 2011 calorias segundo a assessora nutricional deste blog, Vanda Lebedenco (se no Senado pode, porque este blog não nomearia um parente como assessor?)


Alimentar-se de sanduíches assim sempre pode causar a falência do fígado em meses, como ficou provado no filme SuperSizeMe - A Dieta do Palhaço, em que o protagonista se propõe a passar um mês inteiro comendo nas lanchonetes da rede, sendo obrigatório aceitar a refeição tamanho jumbo quando oferecida. Fica difícil ir ao McDonald's de novo após assistir esse filme, que levou a empresa a incluir saladas no seu cardápio e terminar com a política de, por poucos dólares a mais, dobrar o tamanho das refeições. Se você não assistiu, segue o trailer:



Até voltei a ir ao McDonald's depois desse filme. Mas quero rever, pra nunca mais ir. Porque mais impressionante ainda é saber que aquela história de minhoca na carne do McDonald's é realmente lorota. Carne de minhoca apodrece com facilidade. Já os pratos do McDonald's devem ser feitos de formol. A comida da maior rede de lanchonetes do mundo parece ser 90% sintética. Com exceção das batatas, que só podem ser de plástico! Veja:





Conclusão: se é pra acabar com seu fígado de qualquer jeito, coma mais calorias, mas coma comida FRESCA, e ainda pague menos. Prestigie o lanche de Prudente e ajude os pequenos empresários que fazem dele seu ganha-pão (desculpe pelo trocadilho).
O de Prudente ficou famoso e ganhou comunidade no Orkut, mas toda cidade tem o seu favorito. Até Sampa. Já sei: vocês estão pensado que eu vou falar dos sofisticados NewDog, Joakin's ou do Toninho&Freitas, templos do hamburger pós-balada da capital. Certo? Errado. Prefiro mostrar o que é inusitado. Com vocês, um dos melhores plágios de todos os tempos: o McFavela !!!





sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A História dos 3 Porquinhos (ao contrário)

Pérola que criei na aula de sexta passada. O lance era o seguinte: cada um tinha que criar uma história de duplo sentido. Eis o que produzi:


A HISTÓRIA DOS 3 PORQUINHOS (ao contrário)

Havia um lobo metalúrgico que morria de medo de 3 porquinhos: Bolota Câmara, Senado Bolão e Judiciário Prático. Vivia criticando os porquinhos e colocando a culpa de tudo neles.

Aí um dia o lobo tirou a pele de cordeiro, mostrou que era um lobo pernambucano macho e revidou:

  • Cozinhou Bolota Câmara em banho-maria por 8 anos;
  • Torrou Senado Bolão até fazer pururuca;
  • Desmoralizou o Judiciário Prático.
E assim, todos os brasileiros viveram tristes para sempre...

domingo, 6 de setembro de 2009

Pamonhas, pamonhas, pamonhas!


Pamonhas, pamonhas, pamonhas

Pamonhas de Piracicaba

É o puro creme do milho verde

Venham experimentar estas delícias

Pamonhas quentinhas, pamonhas caseiras, pamonhas de Piracicaba

Temos curau e pamonha

Vamos chegando, vamos levando

É a deliciosa pamonha de Piracicaba

Pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras

Pamonhas de Piracicaba

Pamonhas, pamonhas, pamonhas



Todo mundo já ouviu esses versos na rua. As pamonhas de Piracicaba ficaram famosas no Brasil todo após a gravação de Dirceu Bigelli, um vendedor de São Paulo com vários carros, ter ido parar em mais de uma fita cassete. Ou seja, as pamonhas de Piracicaba devem muito a Sampa. E também são feitas aqui ao lado mesmo, em Martinópolis, conta Marina, a primeira motorista de carro de pamonhas que vi.

Ela pilota seu Pálio prateado pelas ruas próximas ao Prudenshopping e ao Tênis Clube. "Meus concorrentes preferem as travessas da Avenida Brasil, onde você vê mais carros de pamonha", diz. Marina acorda todos os dias por volta das 4 da manhã e começa, junto com a família, a preparar as pamonhas que vão ser vendidas em diversas cidades. "Minha irmã hoje está em Tupã", completa.

Marina resolveu adotar uma estratégia alternativa: além do texto diferente, ela percebeu que uma voz feminina chama mais a atenção. Confira:

Mais coisas que nunca te contaram:
  • Pamonha significa pegajoso em tupi, e a grafia original é pa'muña.
  • Percebeu que não existe, no texto original, a frase "venha provar, minha senhora"? O correto é "venham experimentar estas delícias".
  • A maior pamonha do mundo não é de Piracicaba. Foi feita em Santa Catarina e pesava 408 kg.
  • No Aurélio, pamonha também é bobo, tolo, toleirão, preguiçoso, desajeitado. Ou seja: descobri que sou um pamonha.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sobre Xuxa, Talese, Sarney, Ruy Castro e Agripino



Neste final de semana xinguei a Xuxa e, com a ajuda do meu colega @sinomar, ganhei novos followers em minha página do Twitter. Hoje é assim, a informação circula a jato e, se gostam um pouquinho do que você escreve, pessoas que nunca te viram antes passam a ser seus "seguidores", levando a imaginação dos mais incautos à conclusão de que quem me "segue" por lá é meu amigo. Certo? Nem sempre. Tem gente que ainda sabe que a Internet não é tudo.

Gay Talese, um dos maiores jornalistas do mundo, critica os profissionais de imprensa confiantes nas pesquisas somente via Internet. "Só sobreviverão os que se mantiverem junto ao povo, nas ruas, de onde nunca deveriam ter saído, ao invés de ficarem no Google", diz. Basear uma pesquisa somente na Internet pode ser perigoso.

Ruy Castro - preciso mesmo explicar quem ele é? - tem livros de sucesso como "Ela é Carioca" e "Estrela Solitária" e escreve sempre na página 2 da Folha. Até ele se rendeu à Internet e, talvez sem idéias ou de ressaca (eu entendo pois também estava), apelou para o Google e produziu o artigo para sua coluna do sábado, que você confere no post anterior.

Xuxa é uma apresentadora infantil de sucesso, centro de uma discussão na Internet durante a semana. Ofendida pelos xingamentos a ela e Sasha no Twitter, a "Rainha dos Baixinhos" acionou a Justiça pedindo a saída do website do ar no Brasil. Xuxa disse à imprensa: "ou exe Tuíterrr akaba, ou meuix advogadoix vão proibi-lo no Brasil". Depois desse tom autoritário de Xuxa, também postei no Twitter minha ofensa à rainha que, digamos, passa longe de me ter como súdito, porque eu já sou alto. Copiei algo encontrado em outro site sobre ela. Ofensa pesada, mas não de minha autoria. Encontrar a fonte será trabalho dos advogados de Xuxa, que também terão a proeza de censurar milhões de pessoas. Xuxa pensa que é Sarney. Sarney proibiu o Estadão de falar sobre seu filho. Xuxa quer proibir o brasileiro de usar o Twitter. Ela não entende que a Internet também é a voz do povo, ou melhor, o teclado do povo. Sarney quer calar a imprensa porque precisa do povo. Xuxa quer calar o povo porque precisa da imprensa. Sinais da volta da ditadura? Não sei. Sarney, todo mundo sabe, apoiou a ditadura militar. Xuxa, naquela época, ainda nem fazia comerciais de baixo orçamento com Pelé como este aqui, que continua na rede, assim como certo filme que ela fez.



Xuxa e Sarney sabem que não terão muito sucesso em calar a imprensa, nem o povo. Saindo às ruas, ainda ouvirei que Sarney é ladrão e um monte de coisas impublicáveis sobre o passado de Xuxa. Suxa e Xarney adoram lotar o judixiário de proxexos inúteis. Xarney e Suxa xão farinha do mexmo xaco.

Parodiando Ruy Castro - que não foi "seguidor" do Talese no sábado - resolvi deixar Xuxa tomar um xá e dexcanxar e iniciei uma pesquisa, em diversos sites, sobre AGRIPINO. Ou seja, não sou eu quem está falando aqui. Estou apenas copiando e colando. E quem é Agripino? Aqui em Prudente, ele é Agripino de Oliveira Lima Filho, ex-caminhoneiro, ex-professor, ex-tudo da política prudentina, fundador da Unoeste, onde curso jornalismo, da repetidora da Globo, da rádio FM, da rádio AM, do jornal. Não tem meio termo: Agripino é odiado ou amado, assim como Xuxa e Sarney. Se você leu até aqui esperando que eu fosse falar mal ou bem dele, dançou! Minha parada é outra. Vou fazer o que ninguém fez ainda: falar sobre o nome Agripino.

Agripino tem origem latina, e significa "aquele que foi parido pelos pés". Hoje é aniversário de Agripino Lima. Faz 68 anos que ele nasceu, não sei se pelos pés. É o que diz a Wikipedia, porque li no Imparcial que ele tem, na verdade, 82. O xará de Agripino em Brasília não é só José Agripino Maia, senador e ex-tudo da política potiguar. Logo ao lado, na Paraíba, João Agripino Maia foi o ex-tudo da política, até morrer, em 1988. Mas há outro João Agripino Maia no Recife, proprietário de duas empresas de tecnologia, a WIT e a Sophia. O LinkedIn não informa a relação do empresário com os Agripinos do governo, que aliás ainda não acabaram: Oto Agripino é o embaixador responsável pelos brasileiros que moram no exterior, enquanto Agripino Leitão é funcionário da secretaria de saúde de Sergipe, como indica a única referência sobre ele na rede: uma charge do UOL.

Mundo afora, Agripino de Cartago, quase 150 anos após a morte de Cristo, convocou os bispos e declarou que reconheceria somente o batismo da Igreja Católica. Eu não sei o que Agripino Lima, católico fervoroso, pensa do acordo que o governo brasileiro fez com a Santa Sé. Acordos, aliás, nunca agradaram a Agripino...de Nazaré, que foi um anarquista brasileiro do começo do século passado. Como todo anarquista, detestava estudar. Nunca dirigiu uma universidade. Já Agripino, sim: no México, Guerrero Agripino é reitor da Universidade de Guanajuato. 

Agripino Grieco é um pensador brasileiro. Agripino Aroeira, um compositor alagoano de xaxado. Agripino Lima gosta de xaxado? Não sei. Mas também há Agripinos menos famosos: no Facebook, Wilson Agripino da Silva é um carrancudo e Chantelle Agripino é uma americana obesa. No Orkut, Agripino Arroyo é um rapaz apaixonado por motos. O doutor Agripino Magalhães é ortopedista em Fortaleza.

A
gripino não é nome de gente. A construtora Agripino, na Paraíba, divide seu nome com o Hostal Agripino, em Mora, Espanha, cidade famosa pela Fiesta del Olivo.  Mas não é a única empreitada de Agripino no ramo turístico. Quando você for a Salagdoong - uma praia paradisíaca nas Filipinas - pode ficar no Hotel Agripino. Voltando à Ibéria, há artigos valiosos e interessantes na Talleres Agripino, loja de pratarias de Verín, cidade na divisa com Portugal.  Agripino é um bairro de João Pessoa, mas também é apresentado o tempo inteiro por Ferrão, personagem do seriado infantil Vila Sésamo, como o vegetal milagroso que resolve qualquer problema. Agripina - no feminino mesmo - é um dos maiores insetos da zoologia brasileira e A Charanga do Agripino é a canção dos Golden Boys, que diz:

Agripino meu vizinho da direita
Tem um carro que é coisa de museu.
Eu não sei aonde ele tanto ajeita
Que o carro nunca anda e ele quer trocar pneu.
Eu não sei aonde ele tanto ajeita
Que o carro nunca anda e ele quer trocar pneu.

Biribi, fonfon, biribi, fonfon
A buzina começa a tocar
Biribi, fonfon, biribi, fonfon
Mas só anda se a gente empurrar

A canção dos Golden Boys não foi feita para Agripino Lima. Mas, dependendo do viés com que você lê, pode entender que eu disse que ele é de direita, que ele trocou pneus de algum carro oficial sem precisar ou que na gestão dele a coisa só anda se a gente empurrar. Gay Talese está certo mesmo. Fazer jornalismo com base na internet é um perigo. Quer outro exemplo? Agripino Lima, no Orkut, é membro de comunidades como "Eu choro, bebo e peço desculpas", "Eu curto Bob Marley", "Saudades de Prudente. Mentira!", e "Eu adoro gente que se perde". O perfil de Agripino Lima no Orkut é um perigo.


Agripino tenta censurar a mídia? Dizem. Que sim e que não. O ônus de ser pessoa pública é administrar o que se fala sobre ela própria. Ruy Castro não se envergonha de pesquisar no Google. Eu também não. Arcaremos com as críticas em decorrência disso. Agripino Lima não se preocupa muito com o que dizem sobre ele no Orkut, nem tentou proibir o Twitter. Parece ser mais sensato que Xuxa e Sarney. Mas, se quiser copiá-los, serão maix proxexos inúteis no Judixiário. Porque não se cala a voz do povo. Nem o teclado do povo.

Tudo é business - Ruy Castro

(base para meu próximo post)

Crônica aqui publicada ["Errando no analógico", 27/8] pode ter dado a entender que sou inimigo do mundo digital, pelo fato de não frequentar o Twitter, o Orkut, o Flickr, o Tumblr, o Rraurl e outras atrações da blogosfera. Mas não é o caso. Passo o dia on-line, acompanho tudo o que acontece "em tempo real" e, quando tenho alguma dúvida ao escrever, não hesito em apelar para o Google.

Pois ontem mesmo fui ao Google, para recuperar o noticiário sobre dois assuntos recentes e momentosos. Primeiro, o bárbaro caso do homem que matou a facadas cinco membros de uma família -um pai e quatro filhos menores- em João Pessoa, Paraíba, por causa de uma galinha morta e dividida entre as duas famílias. O agressor teria discordado da partilha, dizendo que a ele e seus filhos couberam as partes menos nobres da ave. E partiu para a chacina.

O outro assunto é a história dos pintos encontrados cambaleando num quintal em Volta Redonda (RJ), depois de atacar a bicadas um saco de maconha e comer quase toda a erva. Descobriu-se que o quintal pertencia a um traficante e que os pintos estavam há dias sem água e comida. Imagine a larica.

Quando se vai ao Google, ele nos oferece diversos produtos relacionados ao assunto procurado. É como o site fatura em cima das informações que nos dá de graça. E não quer saber a natureza do assunto.

Assim, junto com a trágica história da família trucidada por causa da galinha, vêm anúncios de embalagens para ovos, de pousadas em Porto de Galinhas e até de tratamento para rugas e pés de galinha. Na matéria sobre os pintos, vêm ofertas de chocadeiras, instruções sobre como plantar maconha em casa e a dica de uma loja em Londres onde se vendem balas, chocolates e pirulitos de maconha.

Tudo é business.

domingo, 9 de agosto de 2009

Desconstruindo o hino de Presidente Prudente

Se todo paulistano que se preza ama e odeia São Paulo ao mesmo tempo, por que não posso fazer o mesmo com Prudente? E de um jeito nada poético: desconstruindo o hino da terrinha. César Cava certamente vai se revirar no túmulo essa noite. Vamos lá:

Louvores a Marcondes e a Goulart
Que aqui vieram para desbravar
Este rincão,
Do meu coração,
Cantado em prosa e verso
Hoje nesta canção.

Comentário: sejam louvados os dois coronéis que começaram tudo isso aqui. Eu disse louvados, e não ofendidos, porque hoje, ambos batizam avenidas cujo trânsito constituei uma grave ofensa aos fundadores da cidade.E isso numa cidade com menos de 100 mil carros. Felizmente, elas só não perdem pra Washington Luiz, cujo trânsito tiraria a paciência até de Mahatma Ghandi.

Rasgando os sertões sorocabanos,
Valentes, corajosos, soberanos,
Tão brava gente
Plantou a semente,
Que vingou e assim nasceu Prudente.

Sertão? Gente, peraí: o Jô fala que a gente fica uma estação depois de Deus me livre . Nosso hino fala em sertão. Tá. Aí ficam reclamando.

Pedaço de terra
Na boca do sertão,
Que abriga e encerra
Um vasto coração.

Comentário: nenhum. É verdade. Eu amo vocês, prudentinos! Mas mudem de música.

Qualquer raça do mundo
Que nela aportar,
O labor e o amor profundo
Há de encontrar.

Comentário: amor, sim. Labor, não. A região tem uma trava logística (faltam boas estradas) e outra geográfica (PP não tem um grande rio que abasteça indústrias que usem muita água) e faltam universidades públicas. A universidade pública atrai investimento. Exemplos, sem citar São Paulo: o ITA transformou São José dos Campos num importante pólo da indústria aeronáutica nacional, a ESALQ fez de Piracicaba a mais principal cidade para quem estuda agronomia e a UNESP faz com que Botucatu seja um respeitado centro médico, Araçatuba uma referência em odontologia e Bauru em engenharia. Prudente é uma das únicas cidades do Estado onde as universidades privadas são melhores que as públicas. Nossa UNESP forma respeitáveis pesquisadores, mas tem poucos cursos e vagas. Depois do pró-Uni de Lula, a tendência é que diminuam investimentos na universidade pública. Entendeu agora porque o DiGenio, dono do Objetivo e da UNIP, é amiguinho do presidente?

Aqui se planta e colhe com cantigas
Do branco algodão à loura espiga,
A pecuária,
Em plena ascensão,
Exporta para o mundo
Sua produção.

Comentário: piada! Posso até concordar que aqui se plante cantando, mas a música ideal para nossas colheitas seriam réquiens. Quem colhe alguma coisa cantando aqui é usineiro, que junto com a cana trouxe a decadência da pecuária. Não entenda decadência pejorativamente. Falo de números. Ademais, ainda temos o anacrônico e duvidoso MST rondando por aí.

Cresceu, cresceu demais e tão menina,
Orgulho desta gente prudentina,
Seus edifícios,
Quais mãos numa prece,
Olham os céus e a Deus agradecem.

Comentário: cresceu, sim. Mas não demais. Precisa crescer bem mais. E pra isso, tem que mexer nas suas travas econômicas. Voltando a Sampa, a cidade tem um hino? Oficialmente, não. Seus nada nobres edis quiseram transformar Sampa, de Caetano Veloso, no hino oficial do município. Dele, destaco alguns versos:

Chamei de mal gosto o que vi
De mal gosto, mal gosto...
===
Da feia fumaça que sobe
Apagando as estrelas...
===
Túmulo do samba,
Mais possível novo quilombo de zumbi...

Taí um hino que não precisa ser desconstruído...

O que foi que o Jô fez de errado?

Jô Soares comprou briga com PP ao entrevistar Juca Kfouri em seu programa e, com ele, reclamar da realização de jogos no Prudentão. Jô disse que "Prudente fica uma estação pra lá de Deus me livre", causando revolta na mídia e governo locais, com críticas pesadas a entrevistador e entrevistado.

Não vejo o Jô, mas ele me arranca gargalhadas como as do Bira com seus livros. Já o Juca escreve bem, mas admirável mesmo é seu dom de prender até o ouvinte de SP que não gosta de futebol com seu CBN Esporte Clube, um programa esportivo com bordões cheios de recados para políticos e cartolas.

Só que Kfouri é que é o grande vilão dessa história. Ao chamar de picuinhas entre cartolas e times a razão de um acontecimento que tanto alegrou os prudentinos, defende o privilégio de somente os paulistanos acompanharem um jogo da primeira divisão ao vivo.

Mas agora é a minha vez de polemizar: o que foi que Jô Soares fez de errado? Nada mais que seu trabalho: fazer piada. O humorista sempre tem que falar de outrém para provocar risos. Instalada a confusão, retratou-se com PP de maneira adequada e, principalmente, sem perder a piada. Leu a ufanista carta enviada pelo prefeito e explicou que só brincara com a enorme distância de Prudente a Sampa. O que é a mais pura verdade.

Viajar entre as duas cidades leva no mínimo três horas, incluindo traslados - isso quando o vôo não atrasa, como ocorreu essa semana por causa de um simples pássaro. Não é tempo considerável mas, dentro do Estado de São Paulo, é o vôo mais longo que temos;

Pela estrada, a coisa piora. Culpa de quem? Sim, dos políticos. O que eles fizeram? Nada. Não tiveram força política para duplicar meros 235 km de pista simples que nos separam da Castelo Branco. São 15 anos de obra e nada do fim da duplicação da Raposo. Graças à não-iniciativa pública, em 5500 dias duplicaram 175 quilômetros de pista, enquanto a Bandeirantes ganhou uma nova faixa em cada sentido em 18 meses e a Ecovias perfurou a Serra do Mar com um complexo de túneis de 10 km em pouco mais de 3 anos. Aqui pertinho, ainda temos os trechos sem acostamento que já ceifaram tantas vidas.

Por fim, não temos mais o saudoso trem que nos levava até a Estação Júlio Prestes, onde hoje funciona a Sala São Paulo. Está correto. Lá acontecem concertos, e não teatro de comédia. E as dezoito horas de viagem eram uma piada com os usuários e entusiastas das estradas de ferro. Tempo suficiente pra se chegar na Índia, voando pela Emirates e fazendo conexão em Dubai.

Jô caçoou de nossa distância da capital, e pouco. Prudente é mesmo longe pra caramba!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Um mugido bem urbano

Se na capital o berrante ainda é um objeto desconhecido, talvez seja interessante aprender o que se vê pela capital...

No último dia sete, um touro invadiu proximidades da Marginal Pinheiros, mais precisamente a Avenida Guido Calói. Ou seja, no meio de uma multidão de moradores e empresas cuja grande sorte era ser ainda madrugada, permitindo que técnicos da CET pudessem agir evitando um desproporcional congestionamento, acidentes ou a morte do animal. Eles não existem só pra multar a gente no rodízio...

Se lá um inocente animal de corte pode causar tanto problema, como convivemos com eles por aqui? Eu diria que bem. Para uma cidade do nosso porte, até que aparecem com menos freqüência que antigamente. Mas aparecem...



Deparei-me, há uns 15 dias, com a cena acima. Na minha rua, paralela à Washington Luiz, um dos quatro eixos principais de ligação do Centro aos bairros. Guardadas as proporções, é como achar uma vaca na Teodoro Sampaio, Alameda Santos ou na Voluntários da Pátria.


Além de precisar provar que é dono do animal, o proprietário foi multado pelo Centro de Controle de Zoonoses em R$ 861,00. É bem mais da metade do seu valor a peso. Deste valor, R$ 267,00 foram cobrados como diária de hospedagem no CCZ. Levaram o touro pro Sheraton? Isto não aconteceria em Prudente. Aqui não tem Sheraton...



segunda-feira, 8 de junho de 2009

Rebatismos



Nunca analisei o trabalho dos vereadores prudentinos, mas de uma coisa já tenho certeza: os referidos nobres parlamentares são melhores que os de nossa capital. Forte indício disso é que nossas ruas, avenidas, parques, monumentos ou mesmo viadutos continuam sendo os mesmos desde que foram criados. Nos quinze anos em que passei em São Paulo, não tive notícia de nada que os vereadores daquela cidade tenham feito de marcante, a não ser duas coisas: roubar dinheiro público e mudar nomes de logradouros.
A primeira...desnecessário dizer. Talvez seja a única cidade no mundo onde um adesivo (distribuído pelo Jornal da Tarde, em 1995) com a inscrição “Eu tenho vergonha dos vereadores corruptos de São Paulo” não precisa ser tirado das janelas ou pára-brisas dos carros, pois sua mensagem permanece atual, ano após ano.
A segunda merece uma análise mais profunda. Ao contrário dos nossos edis, que nomeiam ruas, sim, mas ruas novas, em construção, os vereadores paulistanos parecem gostar de mudar nomes dos pontos mais nobres e conhecidos da capital.
Acha que eu vou falar da Ponte Cidade Jardim? Errou. Até porque, para quem não sabe, ela sempre se chamou Ponte Engenheiro Roberto Zuccolo, e nunca teve o nome de Cidade Jardim, tendo na verdade adquirido este apelido por ser um obstáculo entre duas partes da avenida de mesmo nome. O engenheiro que dá o nome oficial à ponte não só foi um grande nome da engenharia civil neste país como também o calculista daquela obra, e morreu poucos meses antes de sua inauguração. Portanto, por mais feio que seja seu nome, comparado ao apelido dado à ponte, a homenagem é justa é lícita – e diferente das homenagens a vivos que vemos na Bahia de ACM, no Maranhão de Sarney ou na Presidente Prudente de Paulo Constantino, que já emprestou seu nome, por um bom tempo, para nosso hoje movimentado Estádio do Prudentão.
Se a ponte encravada entre o Jardim Europa e o Morumbi fosse um caso único, ninguém estaria lendo este artigo hoje. Mas não é o caso. Espalhados por São Paulo, temos inúmeros casos iguais. Recentemente, o Túnel do Anhangabaú foi rebatizado como Túnel Papa João Paulo II. Justa homenagem ao Santo Padre, mas injusta ofensa ao patrimônio histórico e cultural de nossa capital. Precisava ser justamente o Túnel do Anhangabaú, um dos logradouros mais conhecidos da cidade? Podiam homenagear o antigo Papa rebatizando, por exemplo, o Túnel Tom Jobim. Tom agradeceria. Tenho certeza que o músico está se revirando em seu túmulo no verdíssimo Jardim Botânico carioca, desde que nosso famigerado Paulo Maluf colocou o nome dele num túnel que talvez seja um dos mais cinzas e congestionados da cidade. Já não chega terem, no Rio, trocado o nome do Galeão para Aeroporto Tom Jobim – pra quem não sabe, apesar do lindíssimo Samba do Avião, Tom detestava voar.
Outra vítima da onda de novos batismos feitos pelos vereadores paulistanos é a Ponte Anhangüera, que tem o mesmo nome da estrada à qual ela dá acesso, o que é totalmente lógico. Ou melhor, era, porque algum vereador resolveu homenagear Atílio Fontana e mudar o nome da ponte. E quem foi Atílio Fontana? Não era paulistano, nem paulista. Gaúcho, avô do ex-ministro Luiz Fernando Furlan, Atílio foi fundador da Sadia, que hoje não existe mais, e da Transbrasil, que quebrou deixando um prejuízo considerável em impostos não pagos ao Estado. Aliás, falando em impostos não pagos, lembram da Daslu, de Eliana Tranchesi? Pois bem, seu pai, Dr. Bernardino, deu novo nome ao conhecido Viaduto São Carlos do Pinhal, que passa atrás do MASP.
Não se trata aqui de manchar biografias de personalidades que, de uma forma ou de outra, muito contribuíram para o desenvolvimento do Brasil. O nome de Daher Cutait, outro importante médico, um dos presidentes da Sociedade Brasileira de Proctologia, batiza desde 2001 um dos túneis mais famosos da cidade, o 9 de Julho. Precisava ser justo ele? A única justificativa que consigo encontrar, e de longe, é alguma semelhança entre um túnel e a atividade de um proctologista.
Tenho um posicionamento radical em relação à mudança de nomes de logradouros. Não concordo nem mesmo com o rebatismo da Rodovia dos Trabalhadores, por mais merecida que seja a homenagem à Ayrton Senna. Não acho que endereços devam ter dois nomes. Afinal, os aviões que chegam em Guarulhos pousam em Cumbica ou no Aeroporto Franco Montoro? Fazendo uma analogia com outras cidades, será que os vereadores paulistanos aprovariam a mudança de nome do Corcovado para Morro Leonel Brizola? A Praça dos 3 Poderes, em Brasília, pode um dia ser rebatizada como Praça Getúlio Vargas? Saindo do Brasil, que tal mudarmos o nome da Broadway, em NY, para Rua Ronald Reagan? Ou ainda, pra ficar na terrinha, você concordaria em passarmos a chamar a Washington Luís para Avenida Juarez Nobre?
Há diversas obras da prefeitura paulistana sendo concluídas e aguardando por um nome. Os vereadores não poderiam se contentar em batizá-las, ao invés de renomear logradouros famosos? Ou ainda, o principal: será que esses parlamentares não têm nada mais importante a fazer? Se está sobrando tempo, é melhor que fiquem jogando baralho do que desrespeitando a história das cidades brasileiras.
Não conte aos deputados estaduais, mas os túneis da Rodovia dos Imigrantes são todos numerados. Nenhum deles têm nome. Ainda...

terça-feira, 31 de março de 2009

Apresentação do Blog

Como muitos dos meus leitores, sou mais um prudentino que trocou a terrinha pela capital ainda jovem, logo depois dos 18 anos. E por lá fiquei. Criei raízes, grandes amigos, negócios, enfim, uma quantidade de vida e relacionamentos maior do que a que tinha em Prudente.
Mas...como todo bom filho, sempre vivi com o coração dividido entre a cidade onde construí minha vida e a cidade onde ela foi construída. Capital e interior sempre fizeram parte de um antagonismo que, vez em sempre, me fez sofrer em busca do local ideal para viver. Tanto que, até hoje, para mim o mais plausível seja não morar nem em Prudente, nem em São Paulo, mas sim viver entre as duas...numa eterna bigamia.
Enfim, choramingos à parte, o fato é que me encontro novamente fazendo contas e comparações entre as duas cidades das quais sou filho legítimo. Desde meu primeiro dia de volta aqui, comparar Prudente e Sampa tem sido uma atividade involuntária da minha cabeça. E achei que pudesse contribuir - sei lá se posso, mas vou tentar - com algumas dessas comparações. Espero poder construir um blog interessante e útil.



Renato Lebedenko