Fui visitar o Asilo dos Velhinhos, ou Lar San Raphael, numa atividade do meu curso de jornalismo. Mas já havia feito isso outras dezenas de vezes. Na época da escola, todos os anos íamos ao asilo levar ovos de Páscoa ou presentes de Natal para os idosos. Creio ter ido pela última vez em 1988. E depois, hoje. Surgiram algumas lembranças da infância ao ver os modestos, porém belos jardins, a capela, a gruta, os velhinhos mais doentes todos agrupados numa sala só. Mas o mais legal foram as conversas com os velhinhos.
Já na entrada, ao passar perto do refeitório, o cheiro forte de urina denuncia estarmos na ala dos mais enfermos. Não há sujeira. Tudo é muito limpo, apesar do odor desconfortável, que vem das roupas dos internos mesmo, ou de suas camas. Ao lado, uma grande sala de TV, onde diversos idosos assistem ininterruptamente à programação vespertina. Muitos deles não fazem a menor idéia do que estão vendo ali. Uma boa parte está quase em estado vegetativo. Peço então, à enfermeira Rose, para conversar com um ou dois internos. “Só um minutinho que eu vou arrumar alguém com a cabecinha bem boa pra falar com você”, diz a rechonchuda moça. Alguns segundos depois sou apresentado ao primeiro e, aparentemente, mais animado de todos.
Edgar Evangelista da Cruz tem 74 anos e já foi jornaleiro, vendedor de livros e feirante. Morou no Ipiranga, em São Paulo, até 1947. Está em Prudente há mais de dez anos, quando a família mandou ele pra cá. Pergunto sobre filhos e ele responde “eu não tenho, minha mulher tem”, diz brincando. Gozador, ele assume ter tido 10 herdeiros (um dos quais já morto) com 3 ou 4 amantes. Nunca se casou. "Mas dei uma casa pra cada mulher minha, agora elas que se cuidem", completa. Pretende sair do Lar San Raphael logo. “Em poucos dias, consigo quatro meninas pra trabalhar na feira comigo e começo a ganhar 80 reais diários imediatamente”, diz. Pergunto se Edgar teve algum vício e ele então assume ter sido um grande beberrão. "Considero-me um vagabundo", diz rindo.
É hora da enfermeira chegar com o Mauro Tributino dos Soares, 69. “Esse aí tem tributo só no nome, porque na verdade ele nunca pagou imposto nenhum!”, diz Edgar sobre Mauro, um senhor extremamente lúcido, aparentando saúde de ferro e que cuida da horta da instituição, onde promete me levar. Despedindo-se, Edgar ainda faz umas palhaçadas chamando a atenção: “Vai com Deus, sonha comigo mas não cai da cama!”, encerra ele.
Caminhando com Mauro e uma enfermeira pela ala feminina do asilo, fui me recordando sobre quão grande é o prédio da instituição. A arquitetura dos anos 60 está presente em cada detalhe do asilo, com seus azulejos em cores com tonalidades leves e janelões de ferro maciço. Uma pequena criança já entenderia onde ficam os "meninos"e as "meninas": a ala feminina tem pisos e revestimentos rosados, enquanto a masculina usa azulejos com num tom entre o azul e o verde. As paredes do prédio principal têm revestimento cerâmico imitando tijolos aparentes, enquanto as da capela são feitas com mosaicos de pedrinhas.
No caminho, sou apresentado a Elisa Martins Vieira. “Tenho uns setenta e poucos anos”, diz, aparentemente escondendo a idade. Paraibana, veio para Prudente com oito anos e viveu aqui e em Regente Feijó. Está numa cadeira de rodas e não anda desde os 30, embora afirme sempre ter trabalhado em fábricas de doces. Também contou uma confusa história onde teria feito um “pauzinho” com um cabo de vassoura, que bastou para que ela pudesse se locomover sozinha por muito tempo. “Ia ao banco, ao correio, no mercado, sempre com meu pauzinho, e não precisava da ajuda de ninguém”.
Outra que se apresenta é Marilena de Alcântara, aposentada de 63 anos e dona de uma incrível lucidez. Ao contário dos demais, Marilena escolheu morar no Lar S. Raphael. Solteira, sempre viveu em Dracena, a 80 km de Prudente, onde cuidou da mãe, falecida em 2007. Professora do Estado, aposentada em 1992, Marilena diz ter uma vida agitada fora do asilo. “Saio sozinha e vou ao shopping sempre, mas durmo cedo, logo depois do SPTV, pois às seis da manhã já estou de pé, me preparando para a missa”, conclui.
O terreno atrás do prédio principal, onde fica a horta de que Mauro cuida, surpreende pelo tamanho. Não é difícil imaginar que a instituição poderia fazer um bom dinheiro vendendo seu terreno e mudando-se pra um local mais afastado. O espaço vazio é maior que o dobro da área plantada existente, que produz côco, banana, mandioca, milho, alface, almeirão, rúcula, couve, gengibre, pimenta, cebolinha, chuchu, chicória e vagem. “E tem esse louro aqui, que o Agripino deu”, diz Mauro, levando-me até uma gaiola onde dois papagaios se fartam de frutas de todos os tipos. “Cuidei desse louro desde pequenino, estava todo pelado, tratei-o com fubá de milho e ele hoje está gordão”, ri Mauro, apresentando-me outro idoso, hoje responsável por tratar da ave.
Insisto em saber por que Mauro, tão lúcido e saudável, está num asilo. Enquanto caminhamos, ele vai detalhando sua história de vida. Nascido em Floresta do Sul, distrito de Presidente Prudente, foi morar em São Paulo com 16 anos e nunca mais voltou. Trabalhou algum tempo na feira, mas seu ofício mais longo foi o de zelador. Cuidou de diversos edifícios em São Paulo, dentre os quais cita o antigo endereço de Antônio de Barros, irmão do governador Adhemar de Barros. "Já vi gente graúda subindo naquele elevador, como José Serra, Jânio Quadros e o ex-prefeito paulistano Faria Lima". Separou-se em 1980. "Bebia muito, e a família se afastou", conta Mauro, alcoólatra durante 53 anos, dois litros de cachaça diários por nove deles. Dos 6 filhos, afirma ter mantido contato apenas com Sandra Regina, que “trabalhou na TV Manchete e foi mandada embora”, afirmação que denuncia anos sem contato também com esta filha. "Os outros 5, não vejo há 29 anos" termina, com os olhos marejados.
De volta à na portaria, converso com Irmã Helena, uma das chefes da instituição. Colombiana de Bogotá, nasceu em 1935 e morou em São Paulo de 68 a 85, quando se transferiu para Presidente Prudente. Considera o Brasil um país espetacular, com um povo muito mais solidário que o colombiano. Pergunto sobre as finanças do lar, e ela, feliz, me conta que a instituição vive sem dívidas e não passa necessidades. “São 100 leitos, todos ocupados. Quem é aposentado tem um certo percentual retido para pagar as despesas, mas quem não pode pagar é tratado com o mesmo amor e carinho”, frisa. Citou diversas empresas que doam carne, frango, café, alimentos em geral. “O Agripino e a Dona Anna são nossos anjos, sempre mandam qualquer coisa que falta por aqui, são pessoas benditas”, ouço ao perguntar sobre o político prudentino. “Dona Anna cedeu um enfermeiro de alto padrão à instituição, e a Unoeste sempre ajuda quando fazemos campanhas de arrecadação”, continua.
Segundo Irmã Helena, a principal causa de novas vagas na instituição é o falecimento dos internos atuais. "O atendimento dos hospitais, mesmo os públicos, aos internos, é excelente. Hoje temos dois deles na Santa Casa. Não sabemos se sobreviverão. Em maio, perdemos 11 idosos. Foi muito triste. Mas em média, temos um falecimento por mês”, conta. Mais triste ainda é saber que a lista de espera para uma vaga no Lar San Raphael possui 23 nomes. São 23 velhinhos que estão aguardando a hora de partir para dar vaga na fila a outros, sem esperanças muito diferentes...
Já na entrada, ao passar perto do refeitório, o cheiro forte de urina denuncia estarmos na ala dos mais enfermos. Não há sujeira. Tudo é muito limpo, apesar do odor desconfortável, que vem das roupas dos internos mesmo, ou de suas camas. Ao lado, uma grande sala de TV, onde diversos idosos assistem ininterruptamente à programação vespertina. Muitos deles não fazem a menor idéia do que estão vendo ali. Uma boa parte está quase em estado vegetativo. Peço então, à enfermeira Rose, para conversar com um ou dois internos. “Só um minutinho que eu vou arrumar alguém com a cabecinha bem boa pra falar com você”, diz a rechonchuda moça. Alguns segundos depois sou apresentado ao primeiro e, aparentemente, mais animado de todos.
Edgar Evangelista da Cruz tem 74 anos e já foi jornaleiro, vendedor de livros e feirante. Morou no Ipiranga, em São Paulo, até 1947. Está em Prudente há mais de dez anos, quando a família mandou ele pra cá. Pergunto sobre filhos e ele responde “eu não tenho, minha mulher tem”, diz brincando. Gozador, ele assume ter tido 10 herdeiros (um dos quais já morto) com 3 ou 4 amantes. Nunca se casou. "Mas dei uma casa pra cada mulher minha, agora elas que se cuidem", completa. Pretende sair do Lar San Raphael logo. “Em poucos dias, consigo quatro meninas pra trabalhar na feira comigo e começo a ganhar 80 reais diários imediatamente”, diz. Pergunto se Edgar teve algum vício e ele então assume ter sido um grande beberrão. "Considero-me um vagabundo", diz rindo.
É hora da enfermeira chegar com o Mauro Tributino dos Soares, 69. “Esse aí tem tributo só no nome, porque na verdade ele nunca pagou imposto nenhum!”, diz Edgar sobre Mauro, um senhor extremamente lúcido, aparentando saúde de ferro e que cuida da horta da instituição, onde promete me levar. Despedindo-se, Edgar ainda faz umas palhaçadas chamando a atenção: “Vai com Deus, sonha comigo mas não cai da cama!”, encerra ele.
Caminhando com Mauro e uma enfermeira pela ala feminina do asilo, fui me recordando sobre quão grande é o prédio da instituição. A arquitetura dos anos 60 está presente em cada detalhe do asilo, com seus azulejos em cores com tonalidades leves e janelões de ferro maciço. Uma pequena criança já entenderia onde ficam os "meninos"e as "meninas": a ala feminina tem pisos e revestimentos rosados, enquanto a masculina usa azulejos com num tom entre o azul e o verde. As paredes do prédio principal têm revestimento cerâmico imitando tijolos aparentes, enquanto as da capela são feitas com mosaicos de pedrinhas.
No caminho, sou apresentado a Elisa Martins Vieira. “Tenho uns setenta e poucos anos”, diz, aparentemente escondendo a idade. Paraibana, veio para Prudente com oito anos e viveu aqui e em Regente Feijó. Está numa cadeira de rodas e não anda desde os 30, embora afirme sempre ter trabalhado em fábricas de doces. Também contou uma confusa história onde teria feito um “pauzinho” com um cabo de vassoura, que bastou para que ela pudesse se locomover sozinha por muito tempo. “Ia ao banco, ao correio, no mercado, sempre com meu pauzinho, e não precisava da ajuda de ninguém”.
Outra que se apresenta é Marilena de Alcântara, aposentada de 63 anos e dona de uma incrível lucidez. Ao contário dos demais, Marilena escolheu morar no Lar S. Raphael. Solteira, sempre viveu em Dracena, a 80 km de Prudente, onde cuidou da mãe, falecida em 2007. Professora do Estado, aposentada em 1992, Marilena diz ter uma vida agitada fora do asilo. “Saio sozinha e vou ao shopping sempre, mas durmo cedo, logo depois do SPTV, pois às seis da manhã já estou de pé, me preparando para a missa”, conclui.
O terreno atrás do prédio principal, onde fica a horta de que Mauro cuida, surpreende pelo tamanho. Não é difícil imaginar que a instituição poderia fazer um bom dinheiro vendendo seu terreno e mudando-se pra um local mais afastado. O espaço vazio é maior que o dobro da área plantada existente, que produz côco, banana, mandioca, milho, alface, almeirão, rúcula, couve, gengibre, pimenta, cebolinha, chuchu, chicória e vagem. “E tem esse louro aqui, que o Agripino deu”, diz Mauro, levando-me até uma gaiola onde dois papagaios se fartam de frutas de todos os tipos. “Cuidei desse louro desde pequenino, estava todo pelado, tratei-o com fubá de milho e ele hoje está gordão”, ri Mauro, apresentando-me outro idoso, hoje responsável por tratar da ave.
Insisto em saber por que Mauro, tão lúcido e saudável, está num asilo. Enquanto caminhamos, ele vai detalhando sua história de vida. Nascido em Floresta do Sul, distrito de Presidente Prudente, foi morar em São Paulo com 16 anos e nunca mais voltou. Trabalhou algum tempo na feira, mas seu ofício mais longo foi o de zelador. Cuidou de diversos edifícios em São Paulo, dentre os quais cita o antigo endereço de Antônio de Barros, irmão do governador Adhemar de Barros. "Já vi gente graúda subindo naquele elevador, como José Serra, Jânio Quadros e o ex-prefeito paulistano Faria Lima". Separou-se em 1980. "Bebia muito, e a família se afastou", conta Mauro, alcoólatra durante 53 anos, dois litros de cachaça diários por nove deles. Dos 6 filhos, afirma ter mantido contato apenas com Sandra Regina, que “trabalhou na TV Manchete e foi mandada embora”, afirmação que denuncia anos sem contato também com esta filha. "Os outros 5, não vejo há 29 anos" termina, com os olhos marejados.
De volta à na portaria, converso com Irmã Helena, uma das chefes da instituição. Colombiana de Bogotá, nasceu em 1935 e morou em São Paulo de 68 a 85, quando se transferiu para Presidente Prudente. Considera o Brasil um país espetacular, com um povo muito mais solidário que o colombiano. Pergunto sobre as finanças do lar, e ela, feliz, me conta que a instituição vive sem dívidas e não passa necessidades. “São 100 leitos, todos ocupados. Quem é aposentado tem um certo percentual retido para pagar as despesas, mas quem não pode pagar é tratado com o mesmo amor e carinho”, frisa. Citou diversas empresas que doam carne, frango, café, alimentos em geral. “O Agripino e a Dona Anna são nossos anjos, sempre mandam qualquer coisa que falta por aqui, são pessoas benditas”, ouço ao perguntar sobre o político prudentino. “Dona Anna cedeu um enfermeiro de alto padrão à instituição, e a Unoeste sempre ajuda quando fazemos campanhas de arrecadação”, continua.
Segundo Irmã Helena, a principal causa de novas vagas na instituição é o falecimento dos internos atuais. "O atendimento dos hospitais, mesmo os públicos, aos internos, é excelente. Hoje temos dois deles na Santa Casa. Não sabemos se sobreviverão. Em maio, perdemos 11 idosos. Foi muito triste. Mas em média, temos um falecimento por mês”, conta. Mais triste ainda é saber que a lista de espera para uma vaga no Lar San Raphael possui 23 nomes. São 23 velhinhos que estão aguardando a hora de partir para dar vaga na fila a outros, sem esperanças muito diferentes...

Nenhum comentário:
Postar um comentário