quarta-feira, 22 de outubro de 2014

LÓGICA PETISTA



FATO: O mensalão foi considerado, pelo poder judiciário, corrupção.
PETISMO: O mensalão não existiu.
LOGO, não existiu corrupção no governo do PT.

PETISMO: "O grande atraso destepaiz foi o domínio dazelite" (Lula)
PETISMO: "Eu odeio a classe média, o atraso deste país" (M. Chauí)
LOGO, para o PT, zelite = classe média

PETISMO: Pessoas da classe média são playboys coxinhas
FATO: De acordo com o governo atual, pessoas que ganham mais de R$ 291 por mês são de classe média. O salário mínimo é de R$ 724, ou seja, 2,5 vezes o piso desta classe.
LOGO, quem ganha 2,5 vezes mais que alguém da classe média já é um playboy coxinha.

FATO: Lula e Dilma trouxeram 50 milhões para a classe média.
FATO: Lula, Marilena Chauí e boa parte do PT odeiam a classe média.
LOGO, Lula se orgulha se passar 50 milhões de pessoas para a lista de pessoas que ele odeia.

PETISMO: A zelite é escravocrata. Nunca se conformou em ter que abandonar a prática.
FATO: Legalmente, o governo do PT emprega cubanos em condição análoga à escravidão. Se for obrigado pelo judiciário a suspender o Mais Médicos, não vai se conformar, recorrendo à última instância se necessário. Quem insiste em uma prática considerada pela legislação análoga à escravidão é inegavelmente escravocrata.
LOGO, o PT é uma agremiação escravocrata

RESUMO: Segundo a lógica petista, no Brasil a ELITE = CLASSE MÉDIA = PESSOAS QUE GANHAM MAIS DE 724 REAIS = MÉDICOS CUBANOS = ESCRAVOS = PLAYBOYS COXINHAS = PESSOAS QUE LULA ODEIA, MAS SE ORGULHA DE PODER ODIAR.

Não entendeu? Como não? Nada aqui foi inventado, apenas deduzido.

É isso aí: graças à lógica petista, já somos socialistas! Todo mundo aqui é igual.

E mais: nem corrupção temos!


Missão cumprida, PT! Agora VAZA!!!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

LUCIANA GENRO WINS





Luciana Genro acordou tarde naquele primeiro de janeiro, com alguma ressaca, embora não se lembrasse de muita coisa. Por um minuto pensou ter bebido todas, mas realmente não tinha recordação da noite de réveillon. Parecia ainda estar sonhando. Trabalhara num ritmo puxado durante todo o ano eleitoral, o melhor de toda a sua carreira. Ainda lamentava não ter vencido o pleito, coisa que acreditara ser possível do início ao fim da campanha.

Uma chuva fina caía sobre a capital gaúcha. Achou estranho não encontrar o pai, Tarso, em casa. Não reeleito, o velho não tinha motivo pra acordar cedo num primeiro de janeiro. Concluiu que o ex-governador fora assistir à posse de algum amigo. Tomou seu chimarrão sozinha. Depois de uma ducha rápida, vestiu jeans e uma camisa do Che, e estava pronta pra mais um dia de luta. O que ela não sabia era que sua luta acabara. Ela vencera. 

Pegou o carro para ir à sede gaúcha do PSOL, na General Vasco Alves, mas antes de chegar na João Goulart percebeu que precisava abastecer. Pegou o primeiro retorno para chegar no posto, do outro lado da avenida. De repente, uma luz forte aparece. Deus. Luciana achou que fosse brincadeira do Pânico. Mas não. Era Ele mesmo. Trocaram uma idéia.

-Minha filha...seus desejos foram atendidos...

-Bãh, como ãssim, guri? Quem és tu?

-Deus.

-Deus? Deus? Hahaha! Tu  sãbe que eu não ãcredito em ti, né?

-Até aí, estamos quites...ninguém acredita em você também.

-Bãh, guri! Chega! Quem és?

-Eu sou Deus mesmo. Independente de você crer em mim. Mais ou menos como vocês fazem com o socialismo. Mas deixa eu terminar rapidinho, que tem mais gente mundo afora me pedindo ajuda. Vim aqui te dizer que atendi seus desejos. O capital financeiro acabou. 

-Hein?

-É. Eu acabei com o capital financeiro. O dinheiro. Os bancos.

-Mas bãh, Deus acabar com o cãpital financeiro? Como assim? Eu nunca pedi isso prã você. Ãliás, eu nunca pedi nãda pra você...

-Eu sei, filha! Sou onisciente, esqueceu? Acontece que certos desejos, mesmo quando não são pedidos pra mim, só acontecem com milagre. É aí que eu entro no jogo. Não pense que vida de milagreiro é fácil! Olha pras minhas mãos calejadas! Você tem uma ideia da quantidade de gente que me pede diariamente pela paz em Israel? No Sudão? Na Ucrânia? No Iraque? Pra ter saúde? Pra arrumar namorado? Pra trocar de carro? Pra não chover no dia da festa? Pra não morrer? Pra ganhar dinheiro? Pô, eu sou Deus, mas sou gente também...

-“Em imãgem e semelhança, inclusive”, disse Luciana, com um olhar irônico.

-“Boa! Você até que é inteligente, pra uma integrante do PSOL...mas enfim, continuando: semana passada, justo no meu aniversário, praaaa variar, as pessoas me enchem de pedidos. Parabéns que é bom, mesmo, quase nenhum. Quando recebo algum, pode esperar: na sequência vem algum pedido esdrúxulo. Aí, chegou a virada do ano e eu quis me divertir. Então, saí procurando alguém pra ajudar aleatoriamente...”

-E a escolhida fui eu? Bãh, guri, me deixa!  Ãgora, cadê o que você fez, seu...seu...Deus? Qual teu nome mesmo?

-Tupã. Mas também me chamam de Jesus, Alá, Yaveh, Ganesh...depende de onde estou.  Quando é em igreja pentecostal, por exemplo, me chamam de Espírito de Fogo, depois saem rodopiando igual doidos. Bom, pra você ver o que eu fiz, saia por aí, Lu. Você vai ver o país com que você sempre sonhou! Aliás, não só você. Você e todos os seus amigos.  Agora dá licença, preciso salvar uma tribo do Zaire de um genocídio. Adeus! – e desapareceu num piscar de olhos.

-Adeus...Deus...

Pensou estar louca. Não estava sonolenta. Não tinha bebido. Durante a campanha, tinha parado com a maconha. Não podia ser pega pela imprensa nessa situação. Não estava mais tomando remédios, nem pra dormir. Cortara o Rivotril logo após o fim da campanha, temendo ficar lesada como Eduardo Jorge. Concluiu, então, que estava lúcida. Plenamente lúcida.

-“Bãh, tridoido isso! Bom, deixa eu abãstecer!” – disse, enquanto esterçava a direção de seu carro, obedecendo aos sinais do frentista, que queria posicionar o carro mais perto da bomba. Pediu para o jovem encher o tanque e desceu para pagar no cartão.

"Não, não. Nóis num tamo mais vendênu no cartão, dona!"

"Como assim?"

"A sinhóra num soube? O capital financeiro cabô. Os banco deixáru di ixistí!"

"Tás brincando?" – fez-se de tonta.

"Tô não!! É vérdade. Veja na TV!" – e apontou pra um monitor que mostrava o Datena comentando os saques na maior loja das Casas Bahia, na Marginal Tietê, em São Paulo. Milhares de pessoas levavam o que quisessem para suas casas. A revolta havia começado após a rede anunciar que, por conta do fim do capital financeiro, teria que vender tudo à vista, o que era ruim por um lado, mas bom por outro, pois tudo estaria pela metade do preço, já que os juros não existiam mais. Impossibilitada de atender a demanda, a loja fechou as portas duas horas depois de abrir, causando ira na multidão que ainda fazia fila pra entrar. O apresentador berrava, inconformado, que os seguranças da loja nada faziam para evitar os saques. “Não é possível!!! Cadê as autoridades? Os seguranças estão de braços cruzados, afirmando que não possuem ordem pra conter nenhuma invasão. Dizem que os superiores não apareceram para trabalhar hoje. Além disso, a polícia até agora não chegou!!!"

"Bom, como fãço pra pagar tu? "- continuou com o frentista.

"Ôxi, dona...vou marcá aqui e a sinhóra passa dipois e paga!"

"Mãs...eu posso fazer isso?"

"Oxente, eu num sei não!!! Na vérdade o patrão sumiu, e eu tô tocando o posto do jeito que posso. Me dá vinte real aí de depois a gente conversa. Óia a fila que eu tenho pra atender sozinho...só tô aqui porque trabaiei a vida toda só aqui, sou du nórti, num sei fazê outra coisa. Meus colegas também foram tudo embora, assim que souberam do sumiço do hómi!

Luciana começou a entender. “Deus realmente tri-sacaneou! Além da agenda do PSOL, ãtendeu a do PSTU!!!” - pensou.

Chegando ao diretório, apesar se deparar com portas abertas, não viu ninguém. Apenas um bilhete: "LU, FOMOS PRA BRASÍLIA ASSISTIR A POSSE!!! CORRE PRA LÁ! BEIJO!”
Num monitor longe, um site noticioso trazia um furo: "Brasil muda nome oficial para República Cheguevariana Socialista do Brasil. Em outra tela,  “Parlamentarismo escolhido como regime”. Ao lado, uma edição do Zero Hora, estampava a mesma manchete, com uma chamada embaixo: “Sarney deve aceitar convite para ser primeiro-ministro”.

Pensou em chorar. Conteve-se. Tentou ligar para o pai. Seu Vivo não tinha sinal. Lembrou que o partido tinha uma linha da TIM e outra da Claro. Nada. Nenhuma funcionava. Tentou a internet. Ao abrir o navegador num portal qualquer, entendeu porque não conseguia sinal: a privatização das teles acabara de ser revertida. Os serviços haviam sido suspensos, pois os empregados, comemorando terem passado para a privilegiada casta dos funcionários públicos, haviam deixado os postos três dias antes, e nunca mais voltaram. Podiam, no entanto, ser vistos no bar mais próximo. Tinha instalador andando pelos cabos, atendente de 102 bêbado, e até cancelamentos de linha eram feitos mais rapidamente. Sem patrão, ninguém precisava insistir pra manter o cliente. Trabalhando mesmo, só a Hora Certa, pelo 130, que nunca teve patrão, só tomada.   

De repente, Luciana avista um celular tocando e, ao pegá-lo para atender, viu escrito “Oi” no aparelho e se recusou a fazê-lo. Mesmo com a reestatização, o PSOL jamais iria utilizar o telefone de uma empresa que nada mais era que fruto do coronelismo capitalista nordestino dos anos 80 com um empurrãozinho dos privateiros tucanos.  Jogou o aparelho longe. A ideologia em excesso sempre prejudicou Luciana, mas ela continuava a mesma.

"Bom, amanhã eles voltam!" - pensou

Então, Deus reapareceu, em forma de uma roleta do metrô, que só vai pra frente e não volta, girando sem parar.

"Minha filha, eles não voltam..."

"Bãh, mas como ãssim, tu pode pelo menos me explicar o que foi que tu fez, além de virar roleta de metrô tucano? Porque já vi que tu ãtendeu também o pãrtido do Zé Mãria, guri! Que que tu fez com os patrões?”

"Tá, vou abrir o jogo: eu resolvi atender todos os desejos de toda essa galera que sonha alto de uma vez só. Pelo seguinte: NEM EU, que sou onipotente, aguentava mais vocês falando tanta merda!!! É mundo sem banco, mundo sem patrão, mundo  sem polícia, sem transgênico, sem autoridade, sem agrotóxico. Ah, cansei! E, pra me divertir, fiz um mundo do jeitinho que você e seus demais companheiros xiitas dissidentes do PT queriam! Pronto. Voilà!

"Bãh, Deus...jã entendi isto. Mas tu me conta uma coisa? O dinheiro acabou mesmo?"

"Não. Mas ele não tem mais qualquer valor! O Banco Central, que o emitia, não existe mais. É o fim do ca..."

"Já sei! Do capital financeiro!"

“Sabe de nada...inocente!” – sorriu Deus, transformando-se, por quatro segundos, no Compadre Washington. E emendou: “do ca...buloso salário mínimo brasileiro, que vocês viviam prometendo que subiriam pra cinco mil reais. Podem subir agora. E usem todas essas cédulas aqui. A única forma de fazer isso é essa mesmo...

"Mãs...como assim, se não vale mais nada essa grana?”

“Tudo bem, Lu. Ninguém mais trabalha também...”

“Bãh, como assim? Por que?"

"Porque as pessoas trabalhavam por dinheiro. Como ele não tem mais valor, ninguém mais trabalha. Nem por dinheiro."

"Mãs...então voltamos ao escambo?"

"Sim. As pessoas estão trocando almofada por carne, vestido por cerveja, porta por macarrão"

"Mãs não era isso que pedi! O governo seria dono dos meios de produção e de todo o PIB, e forneceria tudo para o povo em partes iguais..."

"Luzinha...meu bem...você está no Brasil, filha! Por favor. Você é brasileira e eu também...pelo menos é isso que vocês dizem quando precisam de mim. Ali do outro lado do seu Estado, também vivem dizendo que eu sou Argentino, o que até faz algum sentido, já que eu prometi voltar um dia e, ao menos até agora, dei um calote. Voltando ao país do futebol, do samba, do carnaval...come on, baby! Você realmente achava que isso ia funcionar por aqui? Nem meus anjos lá em cima são tão ingênuos..."

"O que é “come on”, Deus? Por favor, não use essa língua imperialista comigo. Eu não gosto. E termina de me contar...o que aconteceu? Não deu certo?"

"Lógico que não! Aconteceu o previsto. O PSOL assumiu, tornou-se dono dos meios de produção e de todo o PIB, e em semanas as lideranças desapareceram com tudo. Levaram até a reserva em ouro do Banco Central, que dava lastro ao real. Como o Banco Central acabou, e não tem mais razão de existir, levaram o ouro para paraísos fiscais!”

“Mas cadê esse povo? E como é que a PF não pega gente saindo com toneladas de ouro do país?"

“Filha, acho que você ainda não percebeu este detalhe...”

“Que detalhe?”

“É que eu atendi as reivindicações do PCO também...e não há mais polícia. Além disso,  mesmo se houvesse, não iria adiantar. O ouro foi embora de navio. Acho que é porque vocês do Brasil estão numa crise aérea que começou em 2006 e nunca mais acabou, mas não tenho certeza. Você saberá mais tarde. Voltando à vaca fria, Paulo Maluf embarcou junto com o ouro, e passou pra maioria dos líderes do PSOL o know-how pra esconder aquilo tudo em Jersey, seguindo depois pra Londres, onde ficariam mais protegidos...tudo por causa do Ronald Biggs. Faz meio século que a Inglaterra não extradita bandidos pro Brasil, justamente porque um deles resolveu fazer o que você sempre quis: entrar no trem pagador, pegar o dinheiro dos ricos e distribuir ao povo oprimido..."

“Mãs então tá todo mundo solto em Londres?”

“Nem todos. O Tarso ainda não sabemos onde foi parar...”

"Bãh, como assim, o pãi?"

"Sim. O presidente."

“BÃH, COMO ÃSSIM, DEUS, TU BOTOU O PÃI DE PRESIDENTE DO BRASIL CHEGUEVARIANO E VEM ME DIZER QUE ELE ASSALTOU O BANCO CENTRAL E SUMIU?” – gritou Luciana, com o coração na boca.

"Calma. minha filha. Veja as coisas pelo meu lado! Primeiro que, se eu colocasse você mesma, não teria como te mostrar o que tô mostrando agora, porque você, como presidenta comunista, jamais receberia Deus no seu gabinete. Segundo, eu quis ser fiel, sobretudo, aos seus desejos. Você sempre quis que o PSOL fosse governo, que o Brasil virasse socialista de verdade e que teu pai se libertasse do PT. Fiz o melhor que pude! Mas a humanidade continua sendo a mesma...além disso, tem a questão do livre arbítrio e tal..."

“Bah, mãs some daqui, seu Deus sacana!!!”

“Seu desejo é uma ordem” – e sumiu num plim.

Estafada, foi pra casa. “Vou tomar um banho e ver a novela”, pensou.

Enxugou-se com a toalha ainda úmida do banho da manhã. O banheiro estava uma zona. Fez cara de paisagem e concluiu que a empregada não aparecera porque não tinha mais patroa. “É. Eu não existo mais. Seria isto?” – pensou. Por alguns minutos, permaneceu em frente ao espelho, tocando-se, como se necessitasse conferir sua própria existência. Depois , tentou relaxar. Espalhou-se no sofá e ligou a TV na novela das oito. A Globo estava fora do ar. Achou estranho mas, muito cansada, recolheu-se e dormiu.

No dia seguinte, resolveu acordar dizendo para si mesma que tudo não passara de um pesadelo. E saiu pra cumprir seus compromissos normalmente, confiando que a ordem teria se restabelecido. Iria voar até São Paulo para participar de um evento com o Black Bloc Infantil, um grupo de crianças que propunha o fim dos porquinhos para guardar as moedinhas da criançada, visando prevenir a acumulação de capital desde o berço.

O táxi que havia chamado tocou o interfone no horário combinado. “Se tem táxi trabãlhando, então quer dizer que tem patrão trabãlhando também!”, supôs, como que num rompante de esperança. Pretendia investigar conversndo com o motorista, um típico gaúcho da fronteira, se ocupava mais em ouvir seu CD de vanerão do que de conversar. Frustrada, pegou seu IPod (presente do filho, já que ela jamais contribuiria com um centavo para a Apple, maior de todos os sucessos do capitalismo) e colocou a Internacional Comunista a todo volume. Rapidamente, chegaram ao Salgado Filho. Na hora de descer, Luciana olhou pra credencial do motorista e entendeu tudo: "Hmmmm...o tãxista é seu próprio patrão...tá explicado!"

Para sua sorte, tinha bilhete emitido para o único avião que, soube depois, decolaria de Porto Alegre naquele dia. Um piloto recém-aposentado da TAM, agora uma estatal, havia retornado ao trabalho. “É por prazer! Gosto de voar. Está no meu sangue!” – disse o comandante,  ignorando um grupo de pilotos da ativa que fazia um motim num canto do aeroporto. A crise começara com da decretação, pela companhia, de uma política socialista de remuneração, que jogou os salários destes profissionais para cerca de 100 dólares mensais. Recheado de dissidentes do PT, o Ministério da Aviação Civil havia proposto a criação do "Mais Pilotos", que previa a contratação de pilotos cubanos para  as aeronaves brasileiras, estopim da crise entre os profissionais. A militância psolista cibernética alardeava, aos quatro cantos, que os profissionais cubanos, treinados somente com aeronaves russas dos anos 60, eram a fina flor da aviação mundial.

O pouso em Congonhas foi tranquilo, mas só o pouso. Luciana não acreditava no que via da janela da aeronave. Na pista do aeródromo, centenas de pessoas se estapeavam para conseguir um assento nos pouquíssimos aviões com combustível para voar. Não havia funcionários trabalhando para organizar a confusão, mas sobravam vários deles, bêbados, vagando pelas pistas e atrapalhando decolagens e pousos. A festa etílica do proletariado liberto ainda perdurava. Era apenas janeiro.  Pra um país onde o ano só começa depois do Carnaval, achou espetacular o fato de estar na capital paulista ao invés de Salvador.  “Pelo menos aqui a coisa anda”  - pensou. Logo depois constatou que, andando mesmo, estavam somente as esteiras do aeroporto,  porque os tiozinhos que descarregavam nelas as malas tavam tomando um chopp no restaurante do terraço do aeroporto e rindo muito, assistindo à confusão de cima.  Precisou ir até o local onde a aeronave estacionara para pegar sua mala de rodinhas que, junto com o restante da bagagem, fora descarregada por um grupo de passageiros desesperados.  

Do outro lado da pista, jaziam dezenas de jatinhos. Ali, o buraco era um pouco mais embaixo: com o fim do capital financeiro, praticamente não havia o que pudesse tirar um jatinho do chão. Sentindo plena impotência, Roberto Irineu Marinho chorava, sentado na escada de seu Falcon 900, e dizia: “Só quero voltar pro Rio!”, ao que alguns funcionários bêbados lhe respondiam: “Aê tio, se liga! Você não é mais nada agora, o PSOL caçou a concessão da Globo! Marinho, que passara o réveillon na Europa e só havia feito a escala em São Paulo para abastecer o jato, dizia que isso era impossível, mas lhe respondiam que se tratava obra divina, e que obra divina não se discutia. 

Abílio Diniz também se juntou ao coro dos descontentes, denunciando autoridades. A Aeronáutica Cheguevariana Brasileira, agora comandada por paramilitares de esquerda e alguns remanescentes das FARC, havia confiscado seu helicóptero. Segundo contou, um autointitulado general apenas lhe disse: “Tu não é aquele tiozão véio que corre maratona? Então perdeu, playboy! Que tal ir correndo pra sua casa em Maresias? Porque hoje quem vai passear no seu Agusta sou eu!!!”. Abílio lembrou dos anos Lula e pensou no quanto era feliz quando o presidente apenas declarava que roubar de rico era uma coisa questionável, afinal de contas, estava roubando dum rico. Eike Batista, recém saído de um doloroso processo de empobrecimento, também estava em apuros e não encontrava um só piloto para seu monomotor Bonanza usado ano 1986. Só que, no caso dele, os pilotos é que não queriam prestar o serviço, pois não sabiam se ele podia pagar.

Antevendo problemas, Luciana foi tentar garantir uma passagem da Gol para seu próximo destino, que era o Rio. Também estatizada, Luciana soubera que seu presidente tinha sido indicado pelo PSOL, então concluiu que seria mais fácil conseguir uma vaga. Infelizmente, essa conclusão durou somente até ela chegar ao guichê da empresa. Hordas protestavam pelas passagens não estarem mais sendo vendidas pela Internet, já que todos os sites de comércio eletrônico haviam sido banidos por “ameaçarem o socialismo”. Além disso, com o fim do dinheiro, as passagens só podiam ser pagas com bens. Peruas grã-finas davam todas as suas jóias em troca de um assento no próximo avião, mas isso nada garantia. Era grande a quantidade de cancelamentos de vôos, já que a torre de controle do aeroporto, também reestatizado, estava fazendo uma greve em apoio aos pilotos da TAM.

Luciana sentou no chão e pensou: “Bãh, tudo que eu queria agora era um trago, pra pãssar essa coisa toda!”. Então, Deus fez uma aparição flash em forma de Val Marchiori para Luciana, dizendo: “Réé-lôôô-ôôôôuu...benhê, você nunca se interessou pelo funcionamento da aviação? Deve ser porque você não tem jatinho que nem eu...you are soooo poor! Anyway, eu te explico: aviões PRECISAM ficar no chão para que o capital financeiro não exista! Ou,  pelo menos, quase todos eles! A maioria dos aviões são arrendados...e pertencem a bancos. O que é um avião no céu, senão uma dívida com o capital financeiro em plena atividade? By the way, você quer champagne? Peguei um pedaço de asfalto lá no céu e fiz uma taça dourada pra você, darling! Tome!”. Cheia de ódio, Luciana recusou a bebida, contou até dez e, quando pensou em dizer algo, o Criador tinha sumido, honrando seu rápido show-up.

Aproveitou uma carona no carro alugado de um grupo de executivos gringos que desistiu de voar e rumava para o Rio, para tentar encontrar o presidente e fundador da empresa, que havia se escafedido. Durante o caminho, na Dutra, achou engraçado ao passar direto pelas cancelas de pedágio. Não havia evasão. Diante dos milhares de casos de clientes sem dinheiro,  os funcionários, agora públicos, suspenderam as cancelas. Ainda na região metropolitana, riu horrores ao ver gente indo e depois voltando de ré, passando dezenas de vezes pela mesma cancela. “Bãh, devem pãgar pedágio todo santo dia, ãgora estão se vingando do Geraldo Ãlckmin...hahahaha” – pensou.

Ficou em silêncio no início da viagem, com medo de que os executivos de repente ligassem ela ao PSOL e aos recentes acontecimentos. Para sua sorte, eram gringos desinformados. Um colombiano, dois argentinos e um peruano. Mas, de repente, um dos gringos diz, em bom portunhol: “Ei, atcho que coniêço bocê! Bocê no és el espantalho que tiene no pacôte de aquel salgadiño...como se llama? Ah! Fandangos!” - disse, com forte sotaque castelhano. Possessa, Luciana pediu para descer no primeiro posto. O gringo havia ressuscitado o bullying que ela tanto sofrera durante a adolescência. 

Ao descer,  Luciana olhou para cima e viu um luminoso recém instalado no posto, contendo os dizeres em letra cursiva: “FRANGO CRU”. Achou estranhíssimo, e foi perguntar aos funcionários o motivo daquilo. 

“Bah, mas o que é esse nome novo, guri?”, ao que um moço rechonchudo e baixinho explicou que, desde a reestatização da Comgás, toda aquela região da Dutra estava sem  gás natural. “Tentamos de tudo: assar os frangos usando lenha, diesel, gasolina, mas eles também estão racionados por conta da reestatização da Petrobrás! A solução foi mudar nosso nome mesmo...”. Não que a Petrobrás tivesse sido vendida, mas o governo havia anunciado ter tirado os petistas do comando da empresa e, embora isso correspondesse a uma privatização, o PSOL tinha aversão a esta palavra, então batizou a operação como reestatização mesmo. Mais tarde, a imprensa descobriria que a troca no comando da estatal ocorrera de um modo muito sui generis: todos os diretores petistas haviam se desfiliado e passado para o PSOL.

Luciana rebateu: “Bah, mas prã esquentar comida tu não pode usar petróleo! Tu tentaste usar álcool num algodão, ou em gel? É muito melhor!!!”. Soube, então, que  faltava algodão no Brasil desde a entrada do novo governo, depois que uma tentativa de nacionalização da Johnson's, culminou com sua batida em retirada do país.  O governo nomeara um grupo de militantes do MST para retomar a produção de algodão mas, ao invés disso, os sem-terra invadiram o laboratório da empresa, abandonado mas intacto, e destruíram 15 anos de pesquisas com algodão transgênico. Depois, invadiram as salas dos diretores da empresa e por lá acamparam, aproveitando a temperatura amena do ar condicionado de suas salas.

“Tá, mas tu não precisa do algodão”, disse Luciana pro frentista do posto. “Se tu tiver cuidado, botas álcool num copinho e obténs uma chama boa, que dá pra tu cozinhares qualquer coisa”, continuou, se sentindo a Ana Maria Braga da política. Foi sucedida por uma crise de riso do rapaz. Sem entender, desistiu da refeição e seguiu à pé pela Dutra, puxando sua mala de rodinhas. De repente, Deus aparece com mais um de seus disfarces fantásticos. Desta vez, estava em forma de Lula. E disse: “Olha, Lufiana, podia acontefer tudo nevte paív, menov eu ficar fem a minha cachafinha! Por ifo, aproveitei o que eu ainda tinha de influênfia na Petobráiv, e revervei TODA a produfão de álcool pra mim...hehehe!"

“Mãs Deus...ou melhor, Lula...custava deixar meio litro pra gente acender a fogueira e esquentar um frango na beira da estrada?” - questionou Luciana, com cara de piedade.

"Companhêra Lufiana, o pobrema é que o governo do PFOL tornou até o alambique Pirafununga, que faiv minha pinguinha, em evtatal! Revultado: em uma femana, já tava faltando 51 nav prateleira! Como eu ainda mandava na Petobráiv, confivquei todo o álcool delev, mivturei com 49% de água e já bebi... então nem adianta maiv pedir. Pede pro meu figo!" - respondeu, apontando o dedo para o órgão metabolizador e...PLIM!...desaparecendo novamente.  

A reprodução do Lula no disfarce divino era tão real que Luciana passou horas pensando se aquilo era mesmo Deus ou se era Lula zuando com ela. Fazia algum sentido pensar que aquilo tudo era obra de Lula, pra colocar medo em qualquer um que porventura viesse a ter vontade de compartilhar o poder com ele. Depois, pensou muito e concluiu que, se o presidente não era mais ele, nem ninguém do PT, só podia se tratar de obra divina mesmo.

“Porra, Deus, tu entendeu tudo tri-errado”, disse Luciana em voz alta, tentando mais um encontro com o Criador. Deus não deu as caras.

Continuou a viagem até o Rio de carona num ônibus. Na altura de Belford Roxo, termina o combustível. O motorista, que morava na região, se desculpou para Luciana com um sorriso irônico e disse que ele pararia por ali pois, além de faltar combustível, ele não tinha mais patrão, portanto ela deveria seguir viagem até o Rio por si própria.

Luciana pegou a Avenida Brasil com sua mala de rodinhas e seguiu andando. Em menos de dez minutos, assalto. Com aquela cabeleira, acabou sendo reconhecida pelos assaltantes, que passaram mais de uma hora escutando um sermão, convencendo-os  a largar o crime. Não porque deveriam trabalhar, mas sim porque o capital financeiro havia acabado, e a profissão de assaltante já não tinha mais vantagem, mesmo sem a existência da polícia pra atrapalhar. Afinal, ninguém tinha mais dinheiro. Os assaltantes pediram desculpas, deram um beijo cada um em Luciana, agradeceram-na, acenderam um baseado e foram embora.

Luciana, mesmo sendo do balacobaco, estava acostumada ao dever hipócrita de ser uma pessoa pública, e prontamente disse: “Bãh, cuidado guris, isso é proibido ãinda!”, no que foi imediatamente corrigida pelos seus quase-algozes: “Não senhora, a senhora tá mal informada! Já tá liberado!!!”

De repente, Deus faz uma aparição show, em forma de Rita Lee, com os olhos vermelhos, rindo compulsivamente e cantando “Erva Venenosa”. Luciana, indignada, disse: “Tu é Deus ou tu é o capeta, hein? Pô, tu sai liberando tudo ãssim? Tem que discutir primeiro! Ir pro Uruguai, visitar Amsterdam!!!”

E Deus disse: “Tu quer é viajar de graça, que eu sei. Mas sorry, baby. Este assunto foi uma reivindicação do PV, e não de vocês. Então fica quieta. Até porque eu faço QUESTÃO de que quem sinta a pressão disso seja o PV. Quando eles estiverem no auge da larica, vou atender outra demanda deles: proibir os agrotóxicos e só permitir alimentos orgânicos. Quero ver como os putos vão equilibrar oferta e demanda! Não vai matar nem a larica do Eduardo Jorge!

“Mãs que Deus mais vingativo!!!” – disse Luciana, num misto de revolta e surpresa.

“Deus é vingativo desde sempre, Luciana...leia a Bíblia. Mas enfim, eu não tô aqui pra falar de religião. Aliás, eu tenho que ir. Algo mais que você queira saber?”

“Sim. Quero saber se tu ajudou os trigêmeos Marina, Aécio e Dilma, pois tu ajudou todos os outros candidatos!!! Com certeza deve ter dado tudo que eles pediram...”

“Você demora pra entender as coisas, hein, Lu? Eu sou Deus, caramba. Não posso ser injusto. Mas relaxa! Você vai adorar o que eu fiz! Que não foi diferente do que fiz contigo, Ajudei eles com tudo o que sempre pediram!” – disse Deus

“Dinheiro, aposto!” – retrucou Luciana

“Sim...todos os reais que sobraram circulando nesta republiqueta...porém, gostaria de lembrá-la de que o dinheiro não vale mais nada...esqueceu?”

Luciana, contorcendo-se de rir, pediu um tempo a Deus, pois agora precisava saber dos detalhes dessa fofoca. Fez meia dúzia de ligações pelo orelhão. A rede celular permanecia sem funcionar desde a reestatização, e os clientes não conseguiam nem protestar pelo Reclame Aqui, que havia sido estatizado e incorporado pelo Procon, portanto agora só atendia presencialmente, como o Procon sempre fez.

Falando com meia dúzia de camaradas do partido em Brasília, descobriu que tucanos haviam aplicado todo o dinheiro que receberam nos bancos, perdendo tudo na virada do ano, já que os mesmos haviam deixado de existir. Marina havia dado o golpe e sumido. Apareceu nos EUA e ofereceu toda a grana, ainda em reais, para que Dr. Rey, cirurgião plástico yankee-mórmon-tupiniquim eleito deputado pelo PSC, tirasse a amargura de sua expressão facial. Antevendo que não seria capaz de tal façanha, o ex-médico, agora mais deputado do que nunca, aproveitou-se de sua dupla nacionalidade, botou Marina na maca, mentiu que ia chamar o anestesista e fugiu pro Rio de Janeiro, sem maiores complicações com a imigração, já que, além de americano, era brasileiro e tinha passaporte vermelho. Nem a bispa Sônia e o marido tinham tanta facilidade pra transportar grana. Dr. Rey só não contava com o fato de que estaria voando logo na virada de ano e que, ao pousar no Brasil, toda a soma já teria perdido seu valor.

A estratégia do sortudo Lula com sua parte do dinheiro havia sido diferente. Assim que recebeu sua cota da “benção divina”, o PT acionou a Transportadora Universal do Dinheiro de Deus, conhecida por PRB ali pelos lados do Planalto, ou por IURD nas periferias. Sob supervisão de Alberto Youssef e sua equipe de doleiros, enviou tudo o que pôde nos jatinhos da Universal para o exterior. Sarney, Roseana e Renan Calheiros também conseguiram uma carona, protegendo bilhões de euros de suas fortunas. 

Nada, porém, foi pior que a decepção de Lula ao tomar conhecimento do valor da comissão cobrada por Edir Macedo pelo transporte da bufunfa: 20%. Lula chegou a pedir uma reunião com Macedo, argumentando que o combinado com a IURD era apenas o dízimo, mas o bispo prontamente se justificou e saiu-se muito bem, dizendo que “No Brasil, tudo que o governo faz custa o dobro, por causa da corrupção”. Impotente, Lula apenas assentiu com a cabeça e pediu um recibo para o pastor, que rapidamente preencheu o documento com apenas metade do valor, 10%. “A outra metade eu usei para comprar a Argentina...sem nota!”, disse o religioso, com um sorriso maroto escondido por baixo de sua ridícula barba branca de ancião.

-“Bãh, Deus, mas tu tá fãzendo tudo isso só prã provãr que o que a gente propõe é utópico?”

-“Depende do seu ponto de vista. Os mais religiosos estão apenas repetindo que eu sou o Deus do impossível! E tem um cara berrando meu nome há uma semana, pedindo pra eu não castigar ele daquele jeito. Confesso que exagerei...

-“Mãs...que fizeste? Com quem?”

-“Levy Fidelix...desculpe aí, mas na Bíblia, eu deixei claro que não queria que usassem meu nome em vão. E vem esse cara, no auge da corrida presidencial, destilar homofobia e ainda tentar me culpar? Dei o que ele merecia!!! Mandei pro seu Estado!!!”

-“Como ãssim? Fidélix tá no Rio Grande, tchê?”

-“Sim. Dei uma repaginada nele, tirei aquele bigode, botei uma peruquinha loira, fiz uma lipo, botei uma calça bem colada, e  coloquei ele de travesti na esquina de um Centro de Tradições Gaúchas em Bagé. A gauchada tá se servindo dele faz uma semana. Até agora, no entanto...não ouvi ele reclamar. Talvez  seja porque também costurei seus lábios...

-“Boa, Deus! Tô começando a acreditar em você!”

-Pois é, mas infelizmente a recíproca não é verdadeira! E PUF!!! Sumiu.

Acordou assustada, não em sua cama, mas sim numa zona eleitoral. De repente, um batalhão de fotógrafos começou a disparar flashes.  Não entendeu. Situou-se quando um repórter da TV Globo começou a narrar sua filmagem: “Estamos ao vivo, acompanhando o voto da candidata Luciana Genro, do PSOL, aqui em Porto Alegre...a candidata agora dirige-se à urna”

Conferiu se realmente estava acordada ou sonhando. De repente, a cena podia mudar. Não mudou. Concluiu que a realidade era aquela mesma. Chegou na urna, apertou o 4 e um segundo dígito. Analisou, depois, os demais  candidatos. Depois de tanta surpresa e tamanha confusão mental, precisava ao menos conferir o que estava fazendo. Acabou anulando o restante do voto, por pura falta de opção.  No dia seguinte, pediu sua desfiliação do PSOL. Arrumou um emprego. Penou no começo, mas, quando começou a ganhar dinheiro, tomou gosto pela coisa. Desde então, tornou-se abastada. Mas sempre se lembra que, não fosse seu sonho maluco daquele dia,  talvez ainda continuasse não muito diferente do Tiririca: uma abestada.