segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sobre Xuxa, Talese, Sarney, Ruy Castro e Agripino



Neste final de semana xinguei a Xuxa e, com a ajuda do meu colega @sinomar, ganhei novos followers em minha página do Twitter. Hoje é assim, a informação circula a jato e, se gostam um pouquinho do que você escreve, pessoas que nunca te viram antes passam a ser seus "seguidores", levando a imaginação dos mais incautos à conclusão de que quem me "segue" por lá é meu amigo. Certo? Nem sempre. Tem gente que ainda sabe que a Internet não é tudo.

Gay Talese, um dos maiores jornalistas do mundo, critica os profissionais de imprensa confiantes nas pesquisas somente via Internet. "Só sobreviverão os que se mantiverem junto ao povo, nas ruas, de onde nunca deveriam ter saído, ao invés de ficarem no Google", diz. Basear uma pesquisa somente na Internet pode ser perigoso.

Ruy Castro - preciso mesmo explicar quem ele é? - tem livros de sucesso como "Ela é Carioca" e "Estrela Solitária" e escreve sempre na página 2 da Folha. Até ele se rendeu à Internet e, talvez sem idéias ou de ressaca (eu entendo pois também estava), apelou para o Google e produziu o artigo para sua coluna do sábado, que você confere no post anterior.

Xuxa é uma apresentadora infantil de sucesso, centro de uma discussão na Internet durante a semana. Ofendida pelos xingamentos a ela e Sasha no Twitter, a "Rainha dos Baixinhos" acionou a Justiça pedindo a saída do website do ar no Brasil. Xuxa disse à imprensa: "ou exe Tuíterrr akaba, ou meuix advogadoix vão proibi-lo no Brasil". Depois desse tom autoritário de Xuxa, também postei no Twitter minha ofensa à rainha que, digamos, passa longe de me ter como súdito, porque eu já sou alto. Copiei algo encontrado em outro site sobre ela. Ofensa pesada, mas não de minha autoria. Encontrar a fonte será trabalho dos advogados de Xuxa, que também terão a proeza de censurar milhões de pessoas. Xuxa pensa que é Sarney. Sarney proibiu o Estadão de falar sobre seu filho. Xuxa quer proibir o brasileiro de usar o Twitter. Ela não entende que a Internet também é a voz do povo, ou melhor, o teclado do povo. Sarney quer calar a imprensa porque precisa do povo. Xuxa quer calar o povo porque precisa da imprensa. Sinais da volta da ditadura? Não sei. Sarney, todo mundo sabe, apoiou a ditadura militar. Xuxa, naquela época, ainda nem fazia comerciais de baixo orçamento com Pelé como este aqui, que continua na rede, assim como certo filme que ela fez.



Xuxa e Sarney sabem que não terão muito sucesso em calar a imprensa, nem o povo. Saindo às ruas, ainda ouvirei que Sarney é ladrão e um monte de coisas impublicáveis sobre o passado de Xuxa. Suxa e Xarney adoram lotar o judixiário de proxexos inúteis. Xarney e Suxa xão farinha do mexmo xaco.

Parodiando Ruy Castro - que não foi "seguidor" do Talese no sábado - resolvi deixar Xuxa tomar um xá e dexcanxar e iniciei uma pesquisa, em diversos sites, sobre AGRIPINO. Ou seja, não sou eu quem está falando aqui. Estou apenas copiando e colando. E quem é Agripino? Aqui em Prudente, ele é Agripino de Oliveira Lima Filho, ex-caminhoneiro, ex-professor, ex-tudo da política prudentina, fundador da Unoeste, onde curso jornalismo, da repetidora da Globo, da rádio FM, da rádio AM, do jornal. Não tem meio termo: Agripino é odiado ou amado, assim como Xuxa e Sarney. Se você leu até aqui esperando que eu fosse falar mal ou bem dele, dançou! Minha parada é outra. Vou fazer o que ninguém fez ainda: falar sobre o nome Agripino.

Agripino tem origem latina, e significa "aquele que foi parido pelos pés". Hoje é aniversário de Agripino Lima. Faz 68 anos que ele nasceu, não sei se pelos pés. É o que diz a Wikipedia, porque li no Imparcial que ele tem, na verdade, 82. O xará de Agripino em Brasília não é só José Agripino Maia, senador e ex-tudo da política potiguar. Logo ao lado, na Paraíba, João Agripino Maia foi o ex-tudo da política, até morrer, em 1988. Mas há outro João Agripino Maia no Recife, proprietário de duas empresas de tecnologia, a WIT e a Sophia. O LinkedIn não informa a relação do empresário com os Agripinos do governo, que aliás ainda não acabaram: Oto Agripino é o embaixador responsável pelos brasileiros que moram no exterior, enquanto Agripino Leitão é funcionário da secretaria de saúde de Sergipe, como indica a única referência sobre ele na rede: uma charge do UOL.

Mundo afora, Agripino de Cartago, quase 150 anos após a morte de Cristo, convocou os bispos e declarou que reconheceria somente o batismo da Igreja Católica. Eu não sei o que Agripino Lima, católico fervoroso, pensa do acordo que o governo brasileiro fez com a Santa Sé. Acordos, aliás, nunca agradaram a Agripino...de Nazaré, que foi um anarquista brasileiro do começo do século passado. Como todo anarquista, detestava estudar. Nunca dirigiu uma universidade. Já Agripino, sim: no México, Guerrero Agripino é reitor da Universidade de Guanajuato. 

Agripino Grieco é um pensador brasileiro. Agripino Aroeira, um compositor alagoano de xaxado. Agripino Lima gosta de xaxado? Não sei. Mas também há Agripinos menos famosos: no Facebook, Wilson Agripino da Silva é um carrancudo e Chantelle Agripino é uma americana obesa. No Orkut, Agripino Arroyo é um rapaz apaixonado por motos. O doutor Agripino Magalhães é ortopedista em Fortaleza.

A
gripino não é nome de gente. A construtora Agripino, na Paraíba, divide seu nome com o Hostal Agripino, em Mora, Espanha, cidade famosa pela Fiesta del Olivo.  Mas não é a única empreitada de Agripino no ramo turístico. Quando você for a Salagdoong - uma praia paradisíaca nas Filipinas - pode ficar no Hotel Agripino. Voltando à Ibéria, há artigos valiosos e interessantes na Talleres Agripino, loja de pratarias de Verín, cidade na divisa com Portugal.  Agripino é um bairro de João Pessoa, mas também é apresentado o tempo inteiro por Ferrão, personagem do seriado infantil Vila Sésamo, como o vegetal milagroso que resolve qualquer problema. Agripina - no feminino mesmo - é um dos maiores insetos da zoologia brasileira e A Charanga do Agripino é a canção dos Golden Boys, que diz:

Agripino meu vizinho da direita
Tem um carro que é coisa de museu.
Eu não sei aonde ele tanto ajeita
Que o carro nunca anda e ele quer trocar pneu.
Eu não sei aonde ele tanto ajeita
Que o carro nunca anda e ele quer trocar pneu.

Biribi, fonfon, biribi, fonfon
A buzina começa a tocar
Biribi, fonfon, biribi, fonfon
Mas só anda se a gente empurrar

A canção dos Golden Boys não foi feita para Agripino Lima. Mas, dependendo do viés com que você lê, pode entender que eu disse que ele é de direita, que ele trocou pneus de algum carro oficial sem precisar ou que na gestão dele a coisa só anda se a gente empurrar. Gay Talese está certo mesmo. Fazer jornalismo com base na internet é um perigo. Quer outro exemplo? Agripino Lima, no Orkut, é membro de comunidades como "Eu choro, bebo e peço desculpas", "Eu curto Bob Marley", "Saudades de Prudente. Mentira!", e "Eu adoro gente que se perde". O perfil de Agripino Lima no Orkut é um perigo.


Agripino tenta censurar a mídia? Dizem. Que sim e que não. O ônus de ser pessoa pública é administrar o que se fala sobre ela própria. Ruy Castro não se envergonha de pesquisar no Google. Eu também não. Arcaremos com as críticas em decorrência disso. Agripino Lima não se preocupa muito com o que dizem sobre ele no Orkut, nem tentou proibir o Twitter. Parece ser mais sensato que Xuxa e Sarney. Mas, se quiser copiá-los, serão maix proxexos inúteis no Judixiário. Porque não se cala a voz do povo. Nem o teclado do povo.

Tudo é business - Ruy Castro

(base para meu próximo post)

Crônica aqui publicada ["Errando no analógico", 27/8] pode ter dado a entender que sou inimigo do mundo digital, pelo fato de não frequentar o Twitter, o Orkut, o Flickr, o Tumblr, o Rraurl e outras atrações da blogosfera. Mas não é o caso. Passo o dia on-line, acompanho tudo o que acontece "em tempo real" e, quando tenho alguma dúvida ao escrever, não hesito em apelar para o Google.

Pois ontem mesmo fui ao Google, para recuperar o noticiário sobre dois assuntos recentes e momentosos. Primeiro, o bárbaro caso do homem que matou a facadas cinco membros de uma família -um pai e quatro filhos menores- em João Pessoa, Paraíba, por causa de uma galinha morta e dividida entre as duas famílias. O agressor teria discordado da partilha, dizendo que a ele e seus filhos couberam as partes menos nobres da ave. E partiu para a chacina.

O outro assunto é a história dos pintos encontrados cambaleando num quintal em Volta Redonda (RJ), depois de atacar a bicadas um saco de maconha e comer quase toda a erva. Descobriu-se que o quintal pertencia a um traficante e que os pintos estavam há dias sem água e comida. Imagine a larica.

Quando se vai ao Google, ele nos oferece diversos produtos relacionados ao assunto procurado. É como o site fatura em cima das informações que nos dá de graça. E não quer saber a natureza do assunto.

Assim, junto com a trágica história da família trucidada por causa da galinha, vêm anúncios de embalagens para ovos, de pousadas em Porto de Galinhas e até de tratamento para rugas e pés de galinha. Na matéria sobre os pintos, vêm ofertas de chocadeiras, instruções sobre como plantar maconha em casa e a dica de uma loja em Londres onde se vendem balas, chocolates e pirulitos de maconha.

Tudo é business.

domingo, 9 de agosto de 2009

Desconstruindo o hino de Presidente Prudente

Se todo paulistano que se preza ama e odeia São Paulo ao mesmo tempo, por que não posso fazer o mesmo com Prudente? E de um jeito nada poético: desconstruindo o hino da terrinha. César Cava certamente vai se revirar no túmulo essa noite. Vamos lá:

Louvores a Marcondes e a Goulart
Que aqui vieram para desbravar
Este rincão,
Do meu coração,
Cantado em prosa e verso
Hoje nesta canção.

Comentário: sejam louvados os dois coronéis que começaram tudo isso aqui. Eu disse louvados, e não ofendidos, porque hoje, ambos batizam avenidas cujo trânsito constituei uma grave ofensa aos fundadores da cidade.E isso numa cidade com menos de 100 mil carros. Felizmente, elas só não perdem pra Washington Luiz, cujo trânsito tiraria a paciência até de Mahatma Ghandi.

Rasgando os sertões sorocabanos,
Valentes, corajosos, soberanos,
Tão brava gente
Plantou a semente,
Que vingou e assim nasceu Prudente.

Sertão? Gente, peraí: o Jô fala que a gente fica uma estação depois de Deus me livre . Nosso hino fala em sertão. Tá. Aí ficam reclamando.

Pedaço de terra
Na boca do sertão,
Que abriga e encerra
Um vasto coração.

Comentário: nenhum. É verdade. Eu amo vocês, prudentinos! Mas mudem de música.

Qualquer raça do mundo
Que nela aportar,
O labor e o amor profundo
Há de encontrar.

Comentário: amor, sim. Labor, não. A região tem uma trava logística (faltam boas estradas) e outra geográfica (PP não tem um grande rio que abasteça indústrias que usem muita água) e faltam universidades públicas. A universidade pública atrai investimento. Exemplos, sem citar São Paulo: o ITA transformou São José dos Campos num importante pólo da indústria aeronáutica nacional, a ESALQ fez de Piracicaba a mais principal cidade para quem estuda agronomia e a UNESP faz com que Botucatu seja um respeitado centro médico, Araçatuba uma referência em odontologia e Bauru em engenharia. Prudente é uma das únicas cidades do Estado onde as universidades privadas são melhores que as públicas. Nossa UNESP forma respeitáveis pesquisadores, mas tem poucos cursos e vagas. Depois do pró-Uni de Lula, a tendência é que diminuam investimentos na universidade pública. Entendeu agora porque o DiGenio, dono do Objetivo e da UNIP, é amiguinho do presidente?

Aqui se planta e colhe com cantigas
Do branco algodão à loura espiga,
A pecuária,
Em plena ascensão,
Exporta para o mundo
Sua produção.

Comentário: piada! Posso até concordar que aqui se plante cantando, mas a música ideal para nossas colheitas seriam réquiens. Quem colhe alguma coisa cantando aqui é usineiro, que junto com a cana trouxe a decadência da pecuária. Não entenda decadência pejorativamente. Falo de números. Ademais, ainda temos o anacrônico e duvidoso MST rondando por aí.

Cresceu, cresceu demais e tão menina,
Orgulho desta gente prudentina,
Seus edifícios,
Quais mãos numa prece,
Olham os céus e a Deus agradecem.

Comentário: cresceu, sim. Mas não demais. Precisa crescer bem mais. E pra isso, tem que mexer nas suas travas econômicas. Voltando a Sampa, a cidade tem um hino? Oficialmente, não. Seus nada nobres edis quiseram transformar Sampa, de Caetano Veloso, no hino oficial do município. Dele, destaco alguns versos:

Chamei de mal gosto o que vi
De mal gosto, mal gosto...
===
Da feia fumaça que sobe
Apagando as estrelas...
===
Túmulo do samba,
Mais possível novo quilombo de zumbi...

Taí um hino que não precisa ser desconstruído...

O que foi que o Jô fez de errado?

Jô Soares comprou briga com PP ao entrevistar Juca Kfouri em seu programa e, com ele, reclamar da realização de jogos no Prudentão. Jô disse que "Prudente fica uma estação pra lá de Deus me livre", causando revolta na mídia e governo locais, com críticas pesadas a entrevistador e entrevistado.

Não vejo o Jô, mas ele me arranca gargalhadas como as do Bira com seus livros. Já o Juca escreve bem, mas admirável mesmo é seu dom de prender até o ouvinte de SP que não gosta de futebol com seu CBN Esporte Clube, um programa esportivo com bordões cheios de recados para políticos e cartolas.

Só que Kfouri é que é o grande vilão dessa história. Ao chamar de picuinhas entre cartolas e times a razão de um acontecimento que tanto alegrou os prudentinos, defende o privilégio de somente os paulistanos acompanharem um jogo da primeira divisão ao vivo.

Mas agora é a minha vez de polemizar: o que foi que Jô Soares fez de errado? Nada mais que seu trabalho: fazer piada. O humorista sempre tem que falar de outrém para provocar risos. Instalada a confusão, retratou-se com PP de maneira adequada e, principalmente, sem perder a piada. Leu a ufanista carta enviada pelo prefeito e explicou que só brincara com a enorme distância de Prudente a Sampa. O que é a mais pura verdade.

Viajar entre as duas cidades leva no mínimo três horas, incluindo traslados - isso quando o vôo não atrasa, como ocorreu essa semana por causa de um simples pássaro. Não é tempo considerável mas, dentro do Estado de São Paulo, é o vôo mais longo que temos;

Pela estrada, a coisa piora. Culpa de quem? Sim, dos políticos. O que eles fizeram? Nada. Não tiveram força política para duplicar meros 235 km de pista simples que nos separam da Castelo Branco. São 15 anos de obra e nada do fim da duplicação da Raposo. Graças à não-iniciativa pública, em 5500 dias duplicaram 175 quilômetros de pista, enquanto a Bandeirantes ganhou uma nova faixa em cada sentido em 18 meses e a Ecovias perfurou a Serra do Mar com um complexo de túneis de 10 km em pouco mais de 3 anos. Aqui pertinho, ainda temos os trechos sem acostamento que já ceifaram tantas vidas.

Por fim, não temos mais o saudoso trem que nos levava até a Estação Júlio Prestes, onde hoje funciona a Sala São Paulo. Está correto. Lá acontecem concertos, e não teatro de comédia. E as dezoito horas de viagem eram uma piada com os usuários e entusiastas das estradas de ferro. Tempo suficiente pra se chegar na Índia, voando pela Emirates e fazendo conexão em Dubai.

Jô caçoou de nossa distância da capital, e pouco. Prudente é mesmo longe pra caramba!