quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O Velho Comunista se Aliançou ao Produtor Rural do Interior



Hoje pela manhã, em Assis, aconteceu a audiência pública promovida pelo Conselho Intermunicipal do Vale do Paranapanema (CIVAP) sobre o Código Florestal Brasileiro. Foi a primeira vez que compareci a uma reunião dessas na vida. E ela se mostrou do mesmo jeitinho que eu imaginava uma audiência pública: atrasada, enfadonha, quente e inútil. Afora o festival de aplausos, discursos e agradecimentos em excesso, a reunião começou com quase duas horas de atraso, enquanto os presentes derretiam dentro de um antigo cinema de Assis, com menos de mil lugares, mas quase duas mil pessoas. Um calor infernal reinava: o cinema não tinha ar-condicionado, nem um único ventilador. Seria o único lugar que a cidade tem para receber tanta gente? Vejam o tamanho da UNIP de Assis que, em férias, poderia ter emprestado seu auditório:



Mas o João Carlos Di Gênio, dono da UNIP e também das vacas mais caras do Brasil, é compadre de Lula, e talvez a idéia fosse mesmo colocar todo aquele pessoal num lugar bem quente, assim ninguém ficava muito tempo. Nelson Bugalho, o promotor do meio ambiente de Prudente, inscreveu-se tardiamente para falar. Talvez ele nem fosse falar nada, mas o político mais importante presente - o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B /SP) - provocou legal, dizendo que "aqueles que são mantidos pelo Estado brasileiro deveriam defender, e não onerar ainda mais a agricultura brasileira". Nova sessão de aplausos, e aí eu cansei de passar calor e fui embora, já que este blog vai ao ar sem me pagar um único cruzado novo. Qualquer dia eu encontro o Bugalho e pergunto...


Cante comigo: o velho comunista se aliançou...ao produtor rural do interior...

Rebelo realmente surpreendeu. O que produtores rurais podiam esperar de alguém do "partidão"? Muito menos do que viram. O deputado fez um apaixonado discurso defendendo o produtor rural brasileiro, deixando claro o que todo mundo já sabe, mas não tem como provar: o motivo pelo qual, por exemplo, o governo alemão financia ambientalistas brasileiros. Estariam nossos irmãos da Oktoberfest realmente interessados na preservação do meio ambiente brasileiro? Ou será que o interesse real é proteger sua ultra-subsidiada agricultura? O ex-presidente da Câmara arrancou aplausos quando disse que "subsidiar a agricultura não dá lucro algum para o Estado europeu, mas representa a sua soberania". O governo alemão, ou o francês, sabem há muito tempo que sua agricultura não é competitiva, mas para manter a atividade soberana, financia suas quebras. Acontece também no Brasil, mas aqui produtor rural é visto como bandido e quem tem uma dívida rolando, mesmo em banco oficial, não pode dar cheque nem em carrinho de pamonha. Já para os bandidos de verdade do MST, tem atenção sobrando. Tudo bem. O conceito de soberania deste governo é distorcido mesmo.


Estaria a situação do produtor mais preta que os cabelos do Fábio Meirelles?

Os produtores rurais entregaram à Aldo sua proposta, que também foi defendida pelo ex-deputado Fábio Meirelles, octogenário com os cabelos mais negros que a asa da graúna. O ponto central é a criação das unidades de conservação (UCs). Hoje, no Estado de São Paulo, 20% da área de qualquer propriedade rural deve ser destinada à reserva ambiental. Ocorre que de nada adianta vários proprietários de, por exemplo, 50 alqueires, reservarem dez deles para diversas reservas esparsas ao longo de uma bacia qualquer. Estudos comprovam que a área mínima para formação de um bioma é de 1.700 alqueires, todos eles juntos. Fazendo uma analogia porca, é como comparar cidade pequena com grande. Qual é mais desenvolvida e oferece melhores condições? Sempre a grande. Uma jaguatirica também encontrará bem mais presas numa reserva grande do que numa do tamanho de poucos quarteirões.

O pulo do gato, ou melhor, dos produtores rurais, é pedir que o Estado financie a criação dessa reserva. É o tal "pagamento por serviços ambientais". Talvez estejam pedindo demais, mas a reivindicação pode ser vista como justa sob o prisma econômico: o produtor tem um imóvel e precisa destinar para o meio ambiente vinte porcento dele. Portanto, deixa de ter 20% de sua renda, além de ter que pagar outros impostos. O problema é que monetizar a questão ambiental pode aumentar a produção de pepinos, batatas quentes e abacaxis para o governo: quem já fez sua reserva há muitos anos agora vai acionar o Estado para receber por isso. Pode ser pressão baixa ou calor, mas eu acho mesmo que o deputado Mauro Bragato estava cansado porque, assim como eu, já sabe que isso não vai dar em nada.

Faltou aos produtores rurais certa organização. Foram aplausos demais, discursos demais, e o evento se transformou numa espécie de festa. Eu mesmo só fiquei sabendo um monte de coisas por estar sentado entre os presidentes dos sindicatos rurais de Araçatuba e Assis. Não havia uma única brochura, xerox ou resumo em papel das reivindicações dos produtores. Já dizia Pratini de Moraes, ex-ministro de agricultura, que o agricultor brasileiro é bom em produção e ruim de marketing. Pura verdade.



Obviamente, nenhum desses eventos fica completo sem a presença do pessoal da esquerda...ah, a anacrônica esquerda brasileira! Na porta do evento, um senhor branco e de olhos azuis, tão culpado da crise econômica quanto este que vos escreve, distribuía uma tal "Carta de Ribeirão Preto" a todos os presentes, onde se exigia a imediata troca de prioridades na política agrícola do governo, privilegiando a agricultura familiar ao invés do "perverso agronegócio". O documento era assinado por diversos representantes de grupos intimamente ligados à atividade, como por exemplo a Associação Nacional dos Violeiros, o Instituto do Adolescente em Risco e a Entidade Ecológica dos Surfistas de Itanhaém.